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UFMA promove palestra sobre antepassados escravizadores de elites políticas do Maranhão

publicado: 28/04/2026 16h27, última modificação: 28/04/2026 18h45
Realizado em parceria com a Agência Pública, o evento discutiu como nomes influentes no estado mantêm vínculos com o passado escravista
UFMA promove palestra sobre antepassados escravizadores de elites políticas do Maranhão

Palestra aborda antepassados escravizadores de políticos do Maranhão. Foto: Agaminon Sales (DCOM).

A Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do Laboratório Experimental de Jornalismo (Laborejo) e em parceria com a Agência Pública, realizou, nessa segunda-feira, 27, a palestra “Projeto Escravizadores: investigações sobre a escravidão no Brasil”. O evento contou com a participação do jornalista Rafael Custódio e do historiador Silvan Mendes, que abordaram a conexão entre personalidades políticas atuais do Maranhão e o sistema escravocrata do passado.

Direcionada a estudantes de Comunicação Social, a atividade, realizada no Centro de Ciências Sociais (CCSo), integrou técnica jornalística e rigor historiográfico. Segundo a mediadora,  professora Gisa Carvalho, essa interdisciplinaridade é essencial para uma formação crítica. “Este encontro é uma oportunidade para os estudantes de comunicação trocarem experiências e aprenderem sobre a prática da apuração e investigação jornalística, de forma detalhada, cuidadosa e aprofundada. A partir disso, fazerem um resgate histórico que fala sobre o presente”, declarou a docente.  

O historiador Silvan Mendes destacou a importância de refletir sobre como as figuras políticas são retratadas pela sociedade, especialmente em um estado marcado por intensas desigualdades: “Esse debate demonstra como nós identificamos esse parentes de escravizadores, como, por exemplo, José Sarney e outras figuras. O que significa para um estado como o Maranhão ter esse perfil social, político e econômico? Será que não é fruto dessa escravidão, dessa perpetuação dessas figuras importantes no poder?”.   

Entre as personalidades citadas na palestra também está Ana Jansen, retratada como empresária e mulher à frente do seu tempo, o que rendeu a ela homenagens em pontos turísticos da capital São Luís. Para Silvan, “isso não exclui o fato de que ela foi uma das maiores detentoras de escravizados no Maranhão”. 

Palestra - Projeto Escravizadores

Projeto Escravizadores

A iniciativa da Agência Pública apresenta um levantamento inédito que mostra que cerca de um quinto dos senadores, quase metade dos governadores e metade dos presidentes da República desde a redemocratização possuem antepassados diretos que foram donos de escravizados ou atuaram na repressão de revoltas de pessoas negras e pobres durante o Império e o Período Colonial.

O jornalista Rafael Custódio ressaltou que o projeto demonstra as possibilidades do jornalismo investigativo fora da mídia tradicional: “Trazer esse projeto para os estudantes de jornalismo serve para mostrar que na imprensa ainda tem espaço para grandes investigações e que é importante revisitar essa história do Brasil e entender quem foram as figuras que se perpetuaram no poder ao longo da nossa história. Além de trazer esse panorama, também mostra que essas famílias permaneceram na elite política e financeira até hoje”. 

Evento foi direcionado aos estudantes de comunicação social da UFMA. Foto: Agaminon Sales (DCOM). 

Para o estudante de Rádio e TV Mabu Botelho, a palestra abriu caminhos para compreender a realidade atual como reflexo de um passado por vezes ignorado. "Ajudou a entender que o que temos hoje é uma construção moldada pelo que veio antes. Para quem pretende seguir na pesquisa, entender esse movimento é fundamental", avalia o discente. 

A professora do curso de jornalismo Seane Melo, que acompanhou sua turma no evento, reforçou que a experiência é indispensável para a prática profissional. “Como jornalistas, precisamos nos aprofundar na história do Maranhão para manter a visão crítica, especialmente sobre heranças que muitas vezes passam despercebidas”. 

Ao fomentar debates que resgatam a memória e o poder no estado, a UFMA reafirma seu papel na construção de uma formação analítica e sensível, pilares para uma sociedade mais justa.

Por: Agaminon Sales

Fotos: Agaminon Sales

Revisão: Jáder Cavalcante

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