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UFMA lidera projeto estratégico de desenvolvimento de foguetes acadêmicos com foco em inovação, formação e soberania tecnológica

publicado: 10/02/2026 11h45, última modificação: 10/02/2026 16h03
Com duração prevista de seis anos, a iniciativa fortalece a atuação da UFMA no setor espacial e consolida o Maranhão como polo de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação
UFMA lidera projeto estratégico de desenvolvimento de foguetes acadêmicos com foco em inovação, formação e soberania tecnológica

Os foguetes que serão desenvolvidos foram pensados para operar em integração direta com os sistemas do Centro de Lançamento de Alcântara. Foto: divulgação/Freepik

A partir de um Acordo de Cooperação Técnica firmado com a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), assinado recentemente,  a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) lidera um amplo projeto de pesquisa, inovação e formação de recursos humanos voltado ao desenvolvimento, à fabricação e ao lançamento de foguetes de treinamento e pesquisa a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). A iniciativa se destaca pelo caráter estratégico, pela abrangência técnica e educacional e pelo potencial de impacto no desenvolvimento científico e tecnológico do estado e do país.

Concebido como um programa de longo prazo, o projeto vai além da construção de foguetes, envolvendo o desenvolvimento de propelentes nacionais, sistemas eletrônicos, processos de fabricação avançados e ações de extensão e divulgação científica, integrando ensino, pesquisa e extensão.

“A gente abrange não só o desenvolvimento tecnológico, que inclui a parte de eletrônica. A gente vai conversar com os sistemas do CLA. Também envolve uma questão da parte de educação, que vai envolver alunos do ensino fundamental e médio, alunos do ensino tecnológico, porque o IEMA vai fazer parte desse projeto. A Agência Espacial também está dentro desse projeto, junto com o projeto deles, com o trabalho dos estudantes de Alcântara. Nós temos a questão do próprio CLA, que precisa fazer um treinamento contínuo da sua equipe”, revela o vice-coordenador do projeto, Claus Franz Wehmann.

A iniciativa prevê a fabricação de foguetes suborbitais de pequeno porte, inicialmente destinados a treinamento e pesquisa, com evolução gradual de complexidade e desempenho. Nas primeiras fases, os foguetes deverão atingir altitudes entre 1 e 3 quilômetros, sendo eles desenvolvidos integralmente no âmbito do projeto, passando pelas etapas de concepção, testes, fabricação, integração e lançamento no CLA. Esse processo permite a consolidação de conhecimentos técnicos e científicos, além do amadurecimento de sistemas e tecnologias nacionais.

Entre os avanços previstos estão o desenvolvimento de eletrônica embarcada, sistemas de comunicação e telemetria, rastreio compatível com os sistemas do CLA e a utilização progressiva de materiais avançados. 

Desenvolvimento de propelente nacional a partir do etanol

Um dos eixos centrais do projeto é o desenvolvimento de um propelente sólido nacional como uma rota alternativa à atualmente utilizada no país, que depende da cadeia do petróleo e de um único fornecedor do insumo básico. A proposta é empregar o etanol como matéria-prima, criando uma solução tecnológica para combustível de foguetes estratégica e alinhada às vocações produtivas do Maranhão.

Essa abordagem contribui para a soberania tecnológica nacional reduzindo a dependência de insumos que estão sujeitos a restrições comerciais e geopolíticas. Além disso, abre novas possibilidades de aplicação industrial para o etanol produzido no estado, especialmente a partir do milho, fortalecendo cadeias produtivas locais e ampliando o potencial de desenvolvimento regional.

“Contribui para eliminar a dependência dessas questões relacionadas ao petróleo. Porque cada produto ali é usado para várias aplicações. Então, você cria mais uma aplicação no mercado do etanol, que é um mercado que pode ser desenvolvido internamente, ou seja, no Maranhão. Pode utilizar toda uma estrutura que já existe para criar um emprego. Você possibilita o mercado de roda do etanol”, destacou o professor Carlos Brito, coordenador do projeto.

Desenvolvimento regional e fortalecimento da cadeia aeroespacial

O projeto também dialoga com a estratégia de tornar o Centro de Lançamento de Alcântara mais atrativo para empresas nacionais e internacionais. Nesse sentido, o trabalho contribui diretamente para a manutenção da capacidade operacional do Centro de Lançamento de Alcântara.

“É a primeira vez que uma universidade vai lançar foguetes acadêmicos dentro de um centro espacial no Brasil. Isso já foi feito em nível de competição, mas, da forma como vai ser feito, ou seja, com o propósito de se comunicar com os instrumentos do CLA, é a primeira vez, por isso é importante”, pontuou o professor Claus Wehmann.

O CLA demanda lançamentos frequentes de foguetes de treinamento para testes, calibração e validação de seus sistemas de rastreio e segurança. A iniciativa complementa as atividades do CLA e amplia a integração entre a Universidade e uma das principais instalações estratégicas do Programa Espacial Brasileiro.

Formação de recursos humanos e impacto educacional

A formação de recursos humanos qualificados é um dos que compõem o trabalho. Discentes da UFMA participam de todas as etapas do desenvolvimento dos foguetes, vivenciando toda a cadeia completa do setor espacial. Essa experiência proporciona uma formação alinhada às demandas tecnológicas e institucionais do setor.

Além do ensino superior, o projeto contempla ações que envolvem alunos do ensino fundamental, médio e técnico, por meio de parcerias com instituições educacionais, como IEMA. Os discentes participam do desenvolvimento de experimentos e cargas úteis embarcadas nos foguetes, bem como de atividades de divulgação científica associadas aos lançamentos.

“Então, o projeto é muito grande. A gente aborda o próprio desenvolvimento tecnológico, a gente aborda a parte educacional, junto ao IEMA, junto à agência espacial e os projetos que ela tem em Alcântara. Além da parte educacional, nós temos também a participação das equipes. A Sirius Sat, Sirius Rocket, a Guará, que é a empresa júnior, são, vamos dizer assim, entidades estudantis da própria UFMA, que participaram tanto do desenvolvimento tecnológico, como também da parte de divulgação e do treinamento desses próprios alunos”, observou o professor Claus.

Projeto estratégico para o Maranhão

Com o apoio da FAPEMA, o projeto reforça o papel da UFMA como instituição estratégica para o desenvolvimento científico e tecnológico do Maranhão. A iniciativa atua como indutora de inovação, contribuindo para a formação de mão de obra especializada, o fortalecimento do ecossistema espacial regional e a criação de oportunidades futuras em áreas de alta tecnologia, como explica o professor Claus Wehmann:

“Então, um dos grandes interesses desse projeto, acho que é essa visão de que ele pode ser um catalisador para o desenvolvimento de uma área de grande importância para o Brasil, uma área tecnológica, que vai fazer uma grande diferença para o estado”.

Ao reforçar a integração entre ensino, pesquisa, inovação e infraestrutura estratégica, o projeto também consolida resultados já alcançados pelo estado no setor espacial. O Maranhão foi o primeiro a lançar satélites desenvolvidos localmente, incluindo um lançamento realizado a partir do próprio CLA, evidenciando a capacidade técnica instalada e o avanço contínuo das iniciativas conduzidas em parceria com a Universidade.

Momento da assinatura do Acordo de Cooperação Técnica entre UFMA e Fapema. Foto: Agaminon Sales/Scom

Para Carlos Brito, o projeto representa um passo decisivo tanto para o desenvolvimento regional quanto para o fortalecimento do Programa Espacial Brasileiro. “A ideia é justamente a gente desenvolver isso, porque é importante não só para o nosso estado, quanto para o Brasil todo. Então, nós fomos o primeiro estado a ter lançado dois satélites feitos aqui. Foi só um. Em um espaço de vinte dias, fizemos isso. Fizemos um no CLA, inclusive, e o outro fora, num lançamento internacional. Então, isso demonstra que a gente está buscando realmente chegar a resultados factíveis”, destacou.

Segundo ele, o principal diferencial está na formação oferecida aos estudantes. “O mais importante para mim, à frente da coordenação de um curso, é que os alunos possam vivenciar toda essa cadeia do setor espacial. Se a gente conseguir elevar cada vez mais isso aqui, nossa ideia justamente é essa: tornar o Maranhão, no centro, um polo espacial, que seja a referência aqui dentro da região Norte e Nordeste”, afirmou.

Integrando um movimento de desenvolvimento tecnológico, formação educacional, extensão institucional e inovação estratégica, o projeto se consolida como uma iniciativa de grande impacto, contribuindo para o posicionamento do Maranhão e do Brasil em uma área essencial para o futuro científico e tecnológico do país.

Por: Ingrid Trindade e Giovanna Carvalho

Produção: Ingrid Trindade

Imagem: Agaminon Sales e divulgação

Revisão: Jáder Cavalcante

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