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UFMA integra gestão de plataforma de microgravidade e avança em pesquisas aeroespaciais no Brasil

publicado: 28/04/2026 12h04, última modificação: 28/04/2026 14h46
Projeto nacional amplia acesso a experimentos em microgravidade
UFMA integra gestão de plataforma de microgravidade e avança em pesquisas aeroespaciais no Brasil

Representantes da UFMA, Agência Espacial Brasileira, Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e Orbital Engenharia, instituições parceiras do Programa de Microgravidade. Foto: divulgação

A utilização de foguetes para levar cargas ao espaço é uma prática consolidada na exploração espacial. Em missões tradicionais, esse processo envolve custos elevados. Diante desses altos investimentos, surgiram alternativas mais acessíveis para a realização de experimentos científicos em ambiente espacial: os projetos de microgravidade. Essas iniciativas utilizam foguetes suborbitais, cujo objetivo não é permanecer em órbita, mas atingir altitudes superiores a 100 quilômetros, onde se considera o início do espaço conforme a linha de Kármán, manter-se alguns minutos em condições de baixa gravidade e retornar à Terra com os experimentos.

No Brasil, a Agência Espacial Brasileira (AEB) coordena o Programa de Microgravidade, que organiza lançamentos voltados à realização desses experimentos. Um dos principais recursos desse programa é a Plataforma Suborbital de Microgravidade, desenvolvida em parceria com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e a empresa Orbital Engenharia. Em 2023, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em parceria com a Fundação Sousândrade, assumiu papel estratégico na gestão do Programa de Microgravidade do Brasil, dando assistência à execução de experimentos científicos e ao desenvolvimento de tecnologia aeroespacial de ponta. Além da atuação gerencial, pesquisadores do Laboratório de Eletrônica e Sistemas Embarcados Espaciais (Labesee) da UFMA também desenvolvem um sistema experimental voltado ao auxílio na recuperação da cápsula após o pouso.

Microgravidade: A microgravidade não representa a ausência total de gravidade, mas, sim, uma condição em que sua influência é significativamente reduzida. Nesse ambiente, fenômenos físicos e químicos ocorrem de forma distinta, permitindo, por exemplo, uma cristalização mais uniforme de moléculas. Esse comportamento é especialmente relevante para pesquisas nas áreas farmacêutica, alimentícia e de materiais. Indústrias farmacêuticas, por exemplo, investem altos recursos em experimentos em microgravidade para compreender melhor a formação de compostos e aprimorar medicamentos. Da mesma forma, estudos com alimentos e materiais buscam identificar mudanças em processos como germinação, estrutura molecular e propriedades físicas.

Plataforma suborbital de microgravidade viabiliza experimentos

A Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM) funciona como um laboratório móvel acoplado ao foguete. Durante o voo, após a separação dos estágios do foguete, a cápsula contendo os experimentos atinge altitudes de até 250 Km. Nesse ponto, permanece entre seis e oito minutos em condições de microgravidade, permitindo a execução dos experimentos. Após essa fase, a cápsula retorna à Terra com o auxílio de paraquedas, sendo resgatada, geralmente no mar, por equipes especializadas.

No espaço, a “ausência” de gravidade permite que fenômenos físicos e químicos ocorram de maneira distinta observada na superfície terrestre, uma vez que, em solo, processos como a sedimentação e a convecção térmica mascaram reações que só no espaço podem ser observadas com total clareza. A respeito desse ambiente diferenciado de pesquisa que permite o desenvolvimento de tecnologias avançadas, o professor Luís Cláudio explica:

“A microgravidade, na verdade, é aquela condição em que a força da gravidade é muito pequena, quase nula. E isso permite que a gente observe fenômenos que na Terra são mascarados pelo peso dos objetos, como a convecção, a sedimentação. Então, em microgravidade, a gente consegue, por exemplo, fazer crescerem cristais de proteínas com uma pureza muito maior para fabricar remédios, ou então estudar ligas metálicas que não se misturariam aqui na Terra”.

O desenvolvimento da Plataforma Suborbital de Microgravidade e do Programa de Microgravidade tem um resultado multidisciplinar para a sociedade. Na medicina e biotecnologia, a microgravidade permite o desenvolvimento de medicamentos mais puros; na ciência dos materiais, possibilita a criação de componentes eletrônicos mais eficientes; e na física da ionosfera, ajuda a entender fenômenos que afetam as comunicações globais.

Fonte: Labesee e Orbital Engenharia. Infográfico elaborado em 23 de abril de 2026

UFMA experimenta otimização da recuperação da cápsula

Um dos maiores desafios superados pela engenharia brasileira foi o sistema de recuperação, após a reentrada na atmosfera. A plataforma tem que garantir que o experimento não sofra nenhum dano, nem na subida, nem na descida. Então, após permanecer alguns minutos em microgravidade, ela retorna à atmosfera, o paraquedas é acionado, e ela cai no mar. A FAB é a responsável por para localizar e resgatar essa plataforma o mais rápido possível.

Nesse contexto, os pesquisadores da UFMA desenvolvem um sistema experimental voltado ao auxílio na recuperação da cápsula após o pouso. “O pessoal do IAE soube das nossas atividades da Missão Adebaran e pediu que a gente construísse um ‘sisteminha’ que auxilia essa recuperação. Esse ‘sisteminha’ não seria um sistema oficial, seria mais como um experimento. Porém é um experimento que não é um experimento químico, não é um experimento biológico, é um experimento que funciona como se fosse um dos sistemas que a cápsula possui para poder permitir que a gente possa recuperar a cápsula em segurança no local aonde ela está indo”, conta Luís Cláudio.

O experimento, desenvolvido no Laboratório de Eletrônica e Sistemas Embarcados Espaciais (Labesee), será testado no voo de qualificação da PSM, no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Natal (RN) e, se consolidar a qualificação do sistema, futuramente, será incorporado de forma oficial às missões, contribuindo para a segurança e eficiência das operações.

Para além da utilização nos voos de microgravidade, a iniciativa contribui para a geração de inovação, com o desenvolvimento de novos sistemas e tecnologias que podem ser aplicados em futuras missões e projetos aeroespaciais. “Se esse sistema que a gente está desenvolvendo der certo, funcionar, der resultado, as próximas viagens já vão contar com ele, ou seja, ele já vai começar a ser utilizado de forma oficial, contínua, e a gente já vai também poder utilizar em outros lançamentos, em outras viagens, em outros projetos que precisem de um sistema como esse”, considera o docente.

Impactos na formação acadêmica e inovação

A participação da UFMA no programa tem impacto direto na formação dos estudantes, ao aproximar teoria e prática. Segundo Luís Cláudio, o projeto funciona como um laboratório real, permitindo que conhecimentos acadêmicos sejam aplicados em um contexto tecnológico avançado.

“Eu costumo dizer que esse projeto foi para a gente um grande laboratório, porque às vezes a gente tem a teoria, mas não tem a prática. Esse projeto possibilitou que a gente juntasse as duas coisas. Pegasse tudo aquilo que a gente aprendeu na academia, que a gente repassa para os alunos dos conteúdos teóricos e visse na prática como é que a coisa acontece. Então, foi muito proveitoso, foi muito importante, porque a gente consegue repassar para os alunos tudo que a gente viu, tudo que a gente aprendeu, para que nos projetos que eles forem se engajar ou forem trabalhar, eles consigam aplicar as técnicas e os procedimentos adequados”, pontua o professor.

Inserção do Maranhão no setor aeroespacial

A atuação da UFMA no Programa de Microgravidade reforça a inserção do Maranhão no cenário aeroespacial brasileiro. Historicamente concentrado na Região Sudeste, o setor passa a contar com a participação de instituições maranhenses, impulsionadas pela presença do Centro de Lançamento de Alcântara. Mas, além do avanço tecnológico, o envolvimento da Universidade no cenário aeroespacial levanta um debate necessário sobre o desenvolvimento socioeconômico regional, com a atração de empresas, profissionais especializados e investimentos e a formação de recursos humanos qualificados e para a consolidação de um novo eixo de inovação na região.

“Às vezes, o cenário do Maranhão é meio pitoresco em relação ao resto do Brasil. Além de ter o menor IDH, ainda somos um povo predominantemente ligado a apadrinhamento político. Temos que entender que a gente tem a faca e o queijo, tem uma base que está começando a ser operacionalizada do ponto de vista comercial. Então, vai começar a trazer, de fato, resultados visíveis para a sociedade. Para usar a base, a empresa que vai lançar traz engenheiros, traz pessoal. Esse pessoal vai ficar hospedado na cidade. Vai precisar, dependendo da quantidade de operações, de um escritório. É mais fácil você contratar quem já está preparado daqui do que ficar o tempo todo trazendo estrangeiro para poder trabalhar aqui. Tudo isso faz com que o estado e os municípios envolvidos se desenvolvam. Então, isso acontecendo no Maranhão é estratégico”.

Com a ampliação das atividades e o início das operações comerciais, a expectativa é que o Maranhão se torne cada vez mais relevante no setor, consolidando-se como um polo emergente da indústria aeroespacial no Brasil.

Visita técnica para acompanhamento da fabricação da PSM na Orbital Engenharia. 

Histórico do Programa de Microgravidade

Historicamente, o programa evoluiu mediante uma série de missões fundamentais. O caminho começou em 2004 com a missão Cumã, seguida pela histórica Centenário em 2006. Ao longo dos anos, missões como Maracati, Raposa e Rio Verde serviram para amadurecer os sistemas de segurança e precisão. O ápice desse cronograma ocorreu em 2022 com a Operação Santa Branca, realizada no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).

O próximo passo, considerado decisivo, será o voo de qualificação final, que ocorrerá no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Natal (RN), previsto para agosto deste ano. O sucesso desta operação vai significar que a PSM está plenamente operacional e sem falhas, pronto para dar início à fase de exploração comercial. Com a plataforma qualificada, pesquisadores de todo o país poderão enviar seus experimentos ao espaço com segurança, o que marcará o começo de um novo ciclo em que a ciência maranhense e brasileira alcança, enfim, sua plena maturidade comercial e tecnológica.

Por: Ingrid Trindade e Judson Nunes

Produção: Ingrid Trindade

Fotos: acervo pessoal

Infográfico: Comunicação Visual e Design Gráfico - UFMA

Revisão: Jáder Cavalcante

 

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