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UFMA fortalece formação intercultural indígena com visita técnica e parceria para valorização da língua tentehar-guajajara
Turma de Licenciatura Intercultural Indígena conhece aplicativo Zane ze'eg criado pelo IFMA/Grajaú. Foto: Marcos Campos
Formação docente, tecnologia e valorização cultural. Essa tríade foi vivenciada pela turma de Licenciatura Intercultural Indígena do Polo de Jenipapo dos Vieiras (MA), ofertada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do PARFOR Equidade, no último sábado, 14, durante uma visita técnica ao Câmpus da UFMA de Grajaú.
A atividade teve por objetivo o encontro com a equipe de pesquisadores do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), coordenada por Charles dos Santos, para conhecer o aplicativo Zane ze’eg, desenvolvido pela instituição, com o intuito de aproximar a turma de professores indígenas guajajara de uma tecnologia que reforça e amplia a identidade e a língua tentehar-guajajara.
A visita foi organizada pela docente da UFMA Codó Kelly Almeida de Oliveira como parte das atividades da disciplina de Tecnologias da Informação aplicadas ao ensino. A turma é composta por vinte e sete professores tentehar guajajara da Terra Indígena Cana Brava.
Segundo a professora, a iniciativa integra um movimento institucional mais amplo de compromisso com a educação indígena no Maranhão. “Essa é a primeira vez que a UFMA oferece uma licenciatura intercultural indígena, para iniciar a reparar um débito histórico com os povos indígenas do nosso estado. Então, parcerias entre a UFMA e o IFMA de Grajaú em prol da preservação da língua tentehar-guajajara podem contribuir muito para a redução das desigualdades socioculturais no nosso estado e promover uma educação antirracista”, pontua Kelly Almeida de Oliveira.
Assim que o aplicativo estiver disponível para download, que ocorrerá em breve, os docentes poderão utilizá-lo nas escolas indígenas, ensinando como se escreve e lê a língua materna. “Muitos professores apenas falam e compreendem, mas não sabem como escrever e ler. Então, o aplicativo vai ajudar na alfabetização e no letramento tanto da língua materna, quanto do português, quanto digital. O ensino nas escolas indígenas é bilíngue (português e guajajara)”, explicou Kelly sobre as contribuições do aplicativo para a formação dos professores indígenas.
Professoras e professores indígenas conhecem o aplicativo Zane ze’eg. Foto: Marcos Campos.
Para a docente, a experiência promove a preservação cultural, o fortalecimento da identidade étnica e a luta em defesa do território tentehar-guajajara no Maranhão, especialmente, diante das relações estabelecidas com a sociedade. A visita também representa um passo importante para a efetivação da Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
“O principal significado [da visita] é preservar a cultura guajajara no nosso estado, fortalecer a identidade étnica do povo guajajara e a luta em defesa do território, porque eles precisam lidar com a sociedade envolvente. Essa visita representa um passo importante para a efetivação da lei 11.645/08”, observa Kelly.
De acordo com a docente, o encontro também abriu caminhos para novas parcerias: “Na turma, há professores tradutores do guajajara para a língua portuguesa. Saímos de lá com a parceria formada nesse sentido. Pois o objetivo da equipe do Ifma é ampliar o glossário, e os professores podem ajudar nesse sentido, a catalogar mais termos. Outra questão é o áudio. Os próprios professores gravarão os áudios para inserção no aplicativo”.
Integração, cultura e fortalecimento identitário
A programação da visita iniciou-se com um café coletivo, seguido por uma cantoria tentehar-guajajara, animada pelo cacique Marcos Muniz Guajajara. A acolhida foi proferida pelo cacique Pedro Aniba Guajajara, seguida pelas apresentações da equipe do IFMA, composta por Maiâna Maia; Marcos Campos; Francisco Bruno de Alcântara e pelas bolsistas Tialyta Pereira dos Santos e Yzaure Guajajara, do Ensino Médio Integrado em Edificações e Administração.
Na sequência, o professor Charles conduziu a exposição detalhada sobre o aplicativo, seguida de debate, questionamentos e agradecimentos.
O coordenador do projeto e professor de sociologia do IFMA, Charles dos Santos, explica sobre o aplicativo Zane ze’eg. Foto: Marcos Campos
O encontro entre pesquisadores do IFMA e da UFMA e professores tentehar-guajajara consolidou uma parceria com potencial de expansão do glossário e inserção de novos recursos. Para a turma, a experiência representou um momento de aprendizagem sobre como as tecnologias não indígenas podem contribuir para a preservação cultural, o fortalecimento identitário e o sentimento de pertencimento ao território tentehar-guajajara no Maranhão.
Zane ze’eg: tecnologia a serviço da preservação linguística
Zane ze’eg é uma expressão tentehar-guajajara que significa “nossa língua, nosso falar, nossa palavra”.
O aplicativo constitui um glossário de aproximadamente duzentas palavras na língua tentehar-guajajara e foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar do IFMA Câmpus Grajaú, composta por estudantes indígenas dos cursos técnicos em Informática e Administração, técnicos administrativos e professores de Sociologia, História e Informática, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), em atenção ao que prevê a Lei nº 11.645/2008.
Com registro de software obtido em 2024 junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o aplicativo é uma ferramenta tecnológica voltada ao aprendizado e à preservação da língua tentehar-guajajara. Desenvolvido entre 2023 e 2024 na linguagem JavaScript, o app oferece um dicionário de termos e expressões utilizados no cotidiano das terras indígenas de Grajaú (MA), com foco na valorização cultural e no uso educativo nas escolas.
O aplicativo representa um movimento de resistência ao monolinguismo e de valorização da língua tentehar-guajajara no Maranhão e, em breve, estará disponível uma nova versão para download na Google Play Store, com aproximadamente quinhentos termos. Entre as inovações previstas, está a inserção de áudios para auxiliar na aprendizagem — etapa que aguarda autorização do CEP para implementação.
O projeto é considerado um marco na valorização da cultura indígena na região, ao conectar conhecimento tradicional e ferramentas digitais contemporâneas.
Para a UFMA, fomentar esses intercâmbios é reafirmar seu compromisso com uma educação intercultural, inclusiva e socialmente referenciada, ampliando o acesso ao ensino superior e fortalecendo políticas públicas voltadas aos povos indígenas do estado.
Por: Ingrid Trindade
Fotos: Marcos Campos
Revisão: Jáder Cavalcante