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ISSO TEM NOME
Rádio Universidade transforma informação em ferramenta de enfrentamento à violência e violação de direitos
Há situações que acontecem todos os dias, mas que nem sempre são reconhecidas pelo nome que têm. Um comentário constrangedor, uma ameaça, uma forma de controle, uma situação de assédio, uma violência psicológica ou a violação de um direito podem ser naturalizados justamente porque muitas pessoas não sabem identificar que estão diante de uma violação.
É nesse espaço entre o cotidiano e o conhecimento que se encontra o “Isso Tem Nome”, programa da Rádio Universidade FM, que utiliza a comunicação pública e universitária para transformar informação em conhecimento, orientação e instrumento de cidadania. Veiculado de segunda a sexta, às 8h40, 15h30 e 20h55, o programa reúne diferentes perspectivas para tratar de direitos, assédios, violências de gênero e situações que atravessam a vida das mulheres e da sociedade.
À frente da iniciativa, estão: a professora doutora Josie Bastos, docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e diretora da Rádio Universidade FM; a advogada e jornalista Sânya Aquino, mestranda em Direito pela UneAtlantico, na Espanha, especialista em Direito e pesquisadora de gênero e raça; e a professora Gisa Carvalho, coordenadora de gênero e diversidade da UFMA, que também atua na produção e condução dos conteúdos.
Mais que informar, o programa procura dar nome às situações. E nomear, nesse contexto, significa permitir que aquilo que muitas vezes é percebido apenas como um desconforto, uma dúvida ou uma experiência aparentemente isolada possa ser compreendido como uma situação concreta, passível de enfrentamento e, quando necessário, de denúncia.
Conhecimento para reconhecer e enfrentar
A professora Gisa Carvalho explica que o programa nasceu com a perspectiva de abordar as situações de maneira didática e concreta, aproximando o conhecimento acadêmico da realidade cotidiana.“O programa é voltado para discutir os temas de assédios e outras violências de gênero, ilustrando de forma didática, concreta e a partir de situações práticas as situações que fazem parte do cotidiano de todas nós, mulheres, mas que, às vezes, a gente não consegue identificar”.
Para Gisa, reconhecer uma situação é um passo fundamental para enfrentá-la.“Uma vez que a gente nomeia a situação, por mais difícil que seja identificarmos como reais, a gente passa a poder enfrentar.”
A atuação da professora também aproxima o programa da produção acadêmica da UFMA e das ações desenvolvidas pela instituição e pela DIDAAF. Ao mesmo tempo, sua experiência no jornalismo permite transitar entre diferentes funções dentro do programa, ora como entrevistadora, ora como depoente, de acordo com a abordagem de cada tema.
Essa conexão entre Universidade, comunicação e sociedade é uma das marcas do “Isso Tem Nome”.
“É fundamental que a Rádio Universidade abra espaço para um programa como esse devido ao alcance que esse veículo tem e da necessidade de que mais mulheres conheçam as situações de violência e as formas possíveis de enfrentamento”, destaca Gisa.
O Direito traduzido para a vida cotidiana
A advogada e jornalista Sânya Aquino acrescenta ao programa a perspectiva jurídica. Sua missão é aproximar o Direito da vida cotidiana, traduzindo conceitos e garantias jurídicas para uma linguagem acessível. Segundo Sânya, o “Isso Tem Nome” funciona como um drop informativo sobre direitos diversos dos cidadãos, utilizando situações reais ou fictícias para ajudar o público a perceber violações e compreender quais caminhos podem ser adotados.
“A principal perspectiva é trazer o Direito na travessia da vida, abordando casos para a percepção das violações e correções possíveis na garantia dos direitos.”
Como responsável por responder aos questionamentos jurídicos apresentados no programa, Sânya procura transformar uma linguagem muitas vezes técnica em informação compreensível para o público. “Minha missão é traduzir para uma linguagem acessível as garantias constitucionais e jurídicas.”
A proposta é fazer com que o Direito deixe de ser percebido como algo restrito aos tribunais, processos e escritórios de advocacia e passe a ser compreendido como parte da vida cotidiana.“Entender o Direito como algo que faz parte da vida, que atravessa a vida e não como algo que só está nos Tribunais ou ações judiciais”, resume Sânya.
Uma pauta necessária também no Rádio
A escolha de abordar questões relacionadas às mulheres, como assédio, violência e direitos, ganha ainda mais importância quando realizada por uma emissora pública e universitária. Para Sânya Aquino, espaços dedicados à discussão do feminino em uma perspectiva ampla e sistemática ainda são necessários. Na avaliação dela, levar essa pauta para a Rádio Universidade amplia o alcance e a credibilidade da discussão.
“Somos mais da metade da população brasileira, mas ainda somos silenciadas diariamente pela estrutura de nossa sociedade.”
Nesse sentido, a Rádio Universidade cumpre uma função que ultrapassa a simples transmissão de conteúdo. A emissora se apresenta como espaço de formação, informação e reflexão, aproximando a produção acadêmica das demandas concretas da sociedade. De acordo com Sânya, essa característica também beneficia os próprios estudantes e profissionais em formação na Universidade. “Possibilita que essa formação seja mais humanizada e próxima do que a sociedade precisa como devolutiva social e profissional.”
Agosto Lilás e os vinte anos da Lei Maria da Penha
A temática ganha ainda mais força neste mês de agosto, quando o programa aborda os vinte anos da Lei Maria da Penha, marco fundamental da legislação brasileira de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. A lei foi sancionada em 2006 e completa duas décadas em 2026. O tema também está inserido em um cenário nacional que demonstra a dimensão da violência contra as mulheres.
Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que o Ligue 180 registrou 1.088.900 atendimentos em 2025, além de 155.111 denúncias de violência contra mulheres. Entre os registros de violência, a violência psicológica esteve entre as formas mais frequentes. No primeiro semestre de 2026, o Ligue 180 recebeu 74.396 denúncias, número 19% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
No Maranhão, o Anuário Estatístico do Ligue 180 aponta que, entre junho e dezembro de 2025, foram registradas 2.051 denúncias, alcançando 158 municípios maranhenses. A Secretaria de Estado da Mulher ressalta que o crescimento dos registros não significa necessariamente aumento da violência, podendo também refletir maior acesso à informação e aos canais de proteção. Os números ajudam a dimensionar por que iniciativas de informação e orientação são importantes. Antes de denunciar, muitas vezes, é preciso primeiro reconhecer a violência. É justamente nesse ponto que o “Isso Tem Nome” procura atuar. Informação como instrumento de transformação.
Para a professora Gisa Carvalho, a comunicação pública tem uma responsabilidade especial nesse processo. “Como uma rádio pública, educativa, temos uma função social de produzir transformações com base no conhecimento.”
A lógica do programa é simples, mas potente: apresentar uma situação, ajudar a identificá-la, explicar por que ela constitui uma violação e indicar caminhos possíveis de enfrentamento, orientação e denúncia. A proposta também acompanha uma transformação na própria maneira de consumir informação. Segundo Sânya Aquino, o conteúdo é pensado para ser simples, direto e objetivo, inclusive em formato multiplataforma, permitindo que o conhecimento ultrapasse a transmissão radiofônica tradicional. “Possibilita que a sociedade tenha uma informação confiável, com base em estudos acadêmicos e prática profissional já realizada.”
O resultado é um conteúdo que combina jornalismo, direito, pesquisa, educação e cidadania.
Uma rádio que amplia a voz da sociedade
A importância do programa também está relacionada ao papel institucional da Rádio Universidade FM como emissora pública e universitária. Segundo Sânya, a emissora tem características que permitem trabalhar pautas que nem sempre encontram o mesmo espaço em veículos comerciais. “Para além de ser uma concessão pública, a Rádio Universidade pode trabalhar temáticas que as rádios comerciais, por vezes, possuem dificuldade em fazê-lo.”
A emissora também integra um sistema público de comunicação e, por sua natureza universitária, estabelece uma ponte entre conhecimento produzido na academia e a sociedade. É uma comunicação que não se limita a transmitir informação: produz reflexão, amplia o acesso ao conhecimento e estimula a cidadania.
Dar nome para transformar
O nome do programa sintetiza sua própria filosofia. Porque reconhecer uma situação é também uma forma de romper o silêncio. Saber que determinado comportamento pode configurar assédio, violência, discriminação ou violação de direitos permite compreender que aquela experiência não precisa ser naturalizada. É esse conhecimento que o programa pretende colocar diariamente ao alcance dos ouvintes.
Gisa Carvalho resume a expectativa em relação ao público que acompanha o conteúdo: “Eu espero que o programa "Isso Tem Nome" gere nas pessoas ouvintes a certeza de que o enfrentamento às violências de gênero está em nossas mãos. E que é pelo conhecimento que vamos conseguir vencer essas situações”.
Sânya Aquino segue na mesma direção ao definir aquilo que gostaria que o ouvinte levasse consigo depois de acompanhar o programa: “Que existe uma forma acessível de informação sobre os seus direitos. E que informação é a chave para garantir que as violações sofridas não sejam repetidas”.
Assim, todos os dias, em três horários, a Rádio Universidade FM abre espaço para uma comunicação que procura fazer uma diferença concreta: transformar dúvida em informação, informação em conhecimento e conhecimento em possibilidade de transformação social.
SERVIÇO
Programa: Isso Tem Nome
Veiculação: segunda a sexta, às 8h40, 15h30 e 20h55
Apresentadoras: Josie Bastos, professora doutora da UFMA e diretora da Rádio Universidade FM; Sânya Aquino, advogada, jornalista, mestranda em Direito pela UneAtlantico (Espanha), especialista em Direito e pesquisadora de gênero e raça; e Gisa Carvalho, professora e integrante da equipe do programa, coordenadora de gênero e diversidade da UFMA
Por: Borges Júnior - Universidade FM
Revisão: Jáder Cavalcante