Notícias
Projeto Re-MARE monitora recuperação da restinga de Panaquatira e impactos de novas intervenções
Área de restinga em Panaquatira, onde intervenções modificaram a paisagem e o ambiente natural. Foto: Davi Fernandes
Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do projeto de pesquisa Restauração Ecológica de Manguezais e Restingas da Amazônia Costeira Maranhense (Re-MARE), vêm acompanhando e analisando como sucessivas intervenções em uma área de restinga na praia de Panaquatira, em São José de Ribamar, interferem no processo de restauração ecológica do local, que apresentava sinais de recuperação após um incêndio ocorrido em setembro de 2025.
A área de restinga atingida pelo incêndio passou a ser acompanhada, nos meses seguintes, como parte das atividades de restauração ecológica do projeto. O monitoramento permitiu detectar a recuperação gradual da vegetação em parte da área queimada, até que, em 11 de agosto de 2026, registros fotográficos mostraram que trechos do local estavam novamente com a cobertura vegetal estabelecida e a vegetação em desenvolvimento gradual.
O biólogo e botânico responsável pelas mídias da restinga, Davi Fernandes, explica que o acompanhamento permitiu identificar diferentes sinais de regeneração natural da vegetação. “Foram observados recrutamento de plântulas, estabelecimento de indivíduos jovens e expansão da cobertura vegetal, indicando continuidade do processo regenerativo. A presença de espécies nativas características da restinga, como Canavalia rosea, Dioclea violacea e Passiflora foetida, também constitui um indicativo relevante da recuperação da comunidade vegetal da Restinga de Panaquatira”, destaca.

Os sinais de regeneração da vegetação em Panaquatira. Foto: Davi Fernandes
Impactos ambientais
Com a recorrência de novas intervenções, aumentou-se a importância do acompanhamento da área, uma vez que essas perturbações atingem um ecossistema que ainda está em processo de restauração de alterações anteriores. Caso não sejam interrompidas, as intervenções podem contribuir para um processo mais amplo de perda e fragmentação progressiva da vegetação da restinga, ocasionando a abertura de novos acessos, soterramento ou supressão adicional da vegetação, com perda de habitats e alteração de uma extensão cada vez maior da faixa costeira.
Sobre os impactos dessas perturbações no processo de restauração ecológica, o biológo explica: “Essas perturbações podem atuar como fatores limitantes à regeneração natural, provocando mortalidade de indivíduos, danos à vegetação, alteração e compactação do substrato e redução do estabelecimento de plântulas. Além disso, eventos recorrentes podem contribuir para a redução do banco de sementes do solo, comprometendo o recrutamento de novas plantas e a capacidade de recuperação da comunidade”.
Ele acrescenta que a recorrência dessas intervenções também pode comprometer a diversidade e a resiliência da vegetação. “A reincidência dessas perturbações também pode favorecer a redução da diversidade de espécies, tornando a comunidade vegetal menos estruturada e resiliente. O soterramento e a movimentação excessiva da areia podem ainda comprometer sementes, plântulas e indivíduos já estabelecidos. Embora a dinâmica arenosa seja um processo natural das restingas, sua intensificação por atividades antrópicas pode alterar a trajetória sucessional e dificultar a recuperação do ecossistema”, finaliza.
Os impactos dessas intervenções ganham ainda mais relevância diante do processo de recuperação observado na área, pois a regeneração natural depende do estabelecimento de novas plantas e da manutenção das condições necessárias para o desenvolvimento da vegetação, de modo que a repetição de perturbações pode interromper esse processo, reduzir a diversidade e comprometer a capacidade de recuperação da restinga. Nesse contexto, a continuidade do monitoramento permite acompanhar as mudanças na cobertura vegetal e identificar os efeitos das alterações sobre um ecossistema que ainda busca restabelecer suas características naturais.

Pilares de concreto evidenciam as intervenções na área de restinga em Panaquatira. Foto: Davi Fernandes
Dessa forma, o acompanhamento realizado pelo projeto Re-MARE contribui para compreender não apenas a capacidade de regeneração da restinga de Panaquatira, mas também os desafios para a conservação da área diante das intervenções recorrentes. O monitoramento dos pesquisadores permite registrar essas transformações e reforça a importância da preservação da vegetação para evitar novos processos de degradação e fragmentação da faixa costeira.
Por: Judson Nunes
Fotos: Davi Fernandes
Revisão: Jáder Cavalcante