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Primeiro estudante surdo conclui mestrado e marca história do Programa de Pós-Graduação Educação e Práticas Educativas da UFMA

publicado: 30/09/2026 11h17, última modificação: 30/09/2026 23h47
Antônio Hercles Coêlho Almeida defendeu dissertação sobre práticas pedagógicas para estudantes surdos
Primeiro estudante surdo conclui mestrado e marca história do Programa de Pós-Graduação Educação e Práticas Educativas da UFMA

Em Libras, a orientadora comunica a Antônio Hercles o resultado de sua aprovação na defesa da dissertação

O dia 10 de setembro de 2026 marcou um momento inédito na trajetória do Programa de Pós-Graduação em Educação e Práticas Educativas (PPGEPE) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Antônio Hercles Coêlho Almeida tornou-se o primeiro estudante surdo a defender uma dissertação de mestrado no programa. A defesa ocorreu no Centro de Ciências de Imperatriz (CCIm).

Intitulada Práticas pedagógicas direcionadas a alunos surdos em escolas inclusivas de Paço do Lumiar-MA, a dissertação tem 124 páginas e investiga os desafios relacionados às práticas pedagógicas voltadas à formação bilíngue de estudantes surdos. A pesquisa foi desenvolvida a partir das experiências de dois professores surdos e duas professoras ouvintes que atuam nos anos finais do Ensino Fundamental em duas escolas municipais de Paço do Lumiar, no Maranhão.

Para Antônio, a chegada ao mestrado representou a possibilidade de ocupar um espaço acadêmico com base na perspectiva de uma pessoa surda e integrante do movimento surdo. Ao longo da pesquisa, ele precisou trabalhar com diferentes interlocutores e contextos, envolvendo tanto pessoas surdas quanto ouvintes. “Foi de suma importância dar esse passo aqui dentro do mestrado, na minha perspectiva, na perspectiva de uma pessoa surda que é resiliente, que luta, uma pessoa do movimento surdo, para que as pessoas vejam que nós não somos incapazes, mas nós somos capazes de ter um futuro melhor para as nossas vidas.”

A trajetória também envolveu a construção de condições de acessibilidade para que Antônio acompanhasse as atividades acadêmicas. Desde o ingresso no programa, o estudante contou com intérpretes profissionais de Libras e com o acompanhamento dos professores. A experiência, segundo ele, foi marcada por uma relação de igualdade dentro da formação acadêmica.

“Eu me senti muito feliz. Os professores maravilhosos, rígidos, cobravam demais de mim, mas isso é normal, não me tratavam como coitado, me tratavam como igual, e por isso saiu esse trabalho perfeito”, relata.

ACESSIBILIDADE

A permanência de Antônio no mestrado esteve relacionada às condições de acessibilidade construídas ao longo do curso. A orientadora, Francisca Melo Agapito, explica que o processo envolveu desafios institucionais, desde a garantia do acesso até a criação de condições para que o estudante pudesse concluir a formação.

O PPGEPE trabalha com ações afirmativas voltadas à ampliação do acesso à pós-graduação por diferentes grupos. Nesse contexto, a presença de Antônio representou também a necessidade de estruturar estratégias para atender às especificidades linguísticas e culturais de um estudante surdo usuário de Libras.

Momento de arguição da banca durante a defesa da dissertação de Antônio Hercles Coêlho Almeida, com mediação do intérprete de Libras. Foto: Camilla Sousa

Para Francisca, a experiência exigiu atenção aos aspectos visuais das aulas, aos materiais utilizados e à mediação por profissionais intérpretes de Libras. A orientadora destaca que o objetivo não era apenas possibilitar o ingresso no programa, mas garantir condições para a continuidade da formação. “Foi desafiador, mas nós conseguimos, com muita dedicação, com luta, proporcionar acessibilidade e, principalmente, a permanência com qualidade.”

O coordenador do PPGEPE, Jónata Ferreira de Moura, explica que a política de inclusão envolve diferentes momentos da trajetória acadêmica. Antônio teve condições de participar do processo seletivo e, depois do ingresso, contou com dois intérpretes de Libras durante as disciplinas para acompanhar as atividades.

Nas orientações individuais, a comunicação ocorria diretamente com Francisca, que possui conhecimento e proficiência em Libras. A dinâmica permitiu que a orientação da pesquisa fosse realizada sem a mediação de intérprete nesses momentos.

Jónata destaca ainda que o programa mantém processos seletivos com ações afirmativas destinadas a diferentes grupos, entre eles pessoas com deficiência, pessoas surdas, indígenas e quilombolas. Para o coordenador, a experiência de Antônio se insere nesse movimento de ampliação do acesso à pós-graduação e de criação de condições para a permanência dos estudantes.

EDUCAÇÃO BILÍNGUE

A pesquisa de Antônio se volta para um dos principais desafios da educação de estudantes surdos: a construção de práticas pedagógicas que considerem suas especificidades linguísticas, culturais e identitárias. O estudo parte dos pressupostos da Educação Bilíngue de Surdos e da perspectiva sociocultural da surdez, considerando a Libras como primeira língua e a Língua Portuguesa como segunda língua, na modalidade escrita.

A investigação ouviu dois professores surdos e duas professoras ouvintes que atuam nos anos finais do Ensino Fundamental. Entre os aspectos analisados, estão o uso de recursos visuais, materiais adaptados e metodologias contextualizadas para o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua.

Os resultados apontaram ainda desafios relacionados às diferentes trajetórias de acesso à Libras. Estudantes podem chegar aos anos finais do Ensino Fundamental apresentando diferentes níveis de desenvolvimento linguístico, o que exige dos professores a adaptação de estratégias e materiais pedagógicos.

A pesquisa também abordou questões relacionadas à acessibilidade linguística, formação docente, participação familiar e à visão capacitista sobre pessoas surdas. A análise considera que dificuldades apresentadas pelos estudantes não podem ser atribuídas automaticamente à surdez, uma vez que também estão relacionadas às condições linguísticas e educacionais vivenciadas ao longo da escolarização.

Como produto educacional, Antônio elaborou uma sequência didática voltada às necessidades linguísticas e educacionais dos estudantes surdos. A proposta não estabelece um modelo único de ensino, mas oferece possibilidades que podem ser adaptadas pelos professores de acordo com diferentes contextos e trajetórias.

Ao desenvolver a pesquisa, Antônio também levou para a pós-graduação uma experiência relacionada ao movimento surdo e à defesa de uma educação que reconheça a Libras, a Cultura Surda e a visualidade como elementos importantes da formação escolar.

ORGULHO DA FAMÍLIA

A defesa da dissertação também foi acompanhada por Raimunda Nonata Coêlho Almeida, mãe de Antônio, que acompanhou a trajetória do filho desde a chegada à Universidade e destaca o apoio recebido de professoras e colegas durante o mestrado.

Raimunda Nonata Coêlho Almeida acompanha, emocionada, a defesa da dissertação do filho,  primeiro estudante surdo a defender uma dissertação de mestrado no PPGEPE-UFMA. Foto: Camilla Sousa

“Como você sabe, é um aluno surdo, e todas as professoras deram o maior apoio, até os próprios amigos dele, daqui”, conta Raimunda.

A mãe também recorda o esforço dedicado pelo filho ao longo da formação. Para ela, a conclusão do mestrado representa o resultado de um percurso marcado por estudo e dedicação.

Raimunda revela ainda que a defesa não aparece como o último projeto acadêmico de Antônio. Segundo ela, o filho já pensa na continuidade da formação e tem o doutorado como próximo horizonte. “Estudou bastante, lutou mesmo e agora conseguiu. E o coração da mãe agora está batendo muito mais de alegria. Muito orgulho. Muito orgulho”, afirma.

A defesa encerra uma etapa da trajetória acadêmica de Antônio Hercles Coêlho Almeida, mas também registra uma marca inédita no PPGEPE. Ao concluir o mestrado com uma pesquisa sobre práticas pedagógicas direcionadas a estudantes surdos, Antônio amplia a presença de pessoas surdas na produção acadêmica e deixa registrada sua própria experiência de acesso, permanência e formação na pós-graduação.

Por: Camilla Sousa - PPGEPE

Fotos: Camilla Sousa

Revisão: Jáder Cavalcante

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