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SÉRIE PRÊMIO FAPEMA 2024
Prêmio Fapema 2024 reconhece a importância da pesquisa da UFMA sobre violência contra a mulher e os impactos na saúde
Considerada um grave problema de saúde pública, a violência contra a mulher engloba qualquer ato de violência de gênero que cause dano físico, sexual ou psicológico e ameaças, gerando um ciclo de sofrimento para as vítimas. Esse cenário também pode estar inserido dentro do contexto da saúde física e psicológica da mulher.
Abordando os temas da violência e saúde da mulher, a pesquisadora Liendne Penha Abreu, do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), realizou um estudo sobre a relação entre a violência praticada por parceiros íntimos e o retorno às atividades sexuais no período do pós-parto, uma fase em que muitas mulheres estão especialmente vulneráveis, sobretudo em relações de risco.
A pesquisa ‘Violência por parceiro íntimo na gestação e tempo de retorno das atividades sexuais após o parto: análise da Coorte de pré-natal Brisa’, foi uma das vencedoras do Prêmio Fapema 2024, na categoria Dissertação de Mestrado - área Ciências da Saúde, por chamar atenção para um tema sensível e, por vezes, tão silenciado na vida das mulheres.
A docente do Departamento de Saúde Pública e orientadora do trabalho, Rosângela Fernandes, destacou que a pesquisa foi pensada com base em dados acerca da gravidez que já existiam no estado.
“Nós estudamos que aqui, no Maranhão, 60% das gestantes não planejam as suas gravidezes. São desejadas, mas não planejadas. E 25% dessas mulheres têm histórico de violência antes da gravidez pelo parceiro íntimo. Então, praticamente, esse mesmo percentual de 25% histórico de violência antes da gravidez permaneceu durante a gravidez, ou seja, as mulheres, mesmo estando grávidas, continuam sendo agredidas psicologicamente, ou fisicamente, ou emocionalmente pelo parceiro íntimo”, aponta Rosângela.
Para Liendne Abreu, os dados se uniram à sua afinidade com área da Saúde da Mulher.
“Já venho numa trajetória aí pesquisando sobre a saúde da mulher. Desde a graduação, é uma área com que eu tenho afinidade. Fiz especialização em ginecologia e obstetrícia. Após isso, eu ingressei na residência de enfermagem nessa área. Quando eu tive o primeiro contato com a minha orientadora, eu já cheguei dizendo que queria algo na área da saúde da mulher”, contou a pesquisadora.
Desafios durante o processo
Durante a gestação, a mulher passa por uma série de transformações fisiológicas e psicológicas, tornando-se mais sensível e fragilizada. Passar por quaisquer tipos de violência nesse período pode trazer consequências para a mãe e o bebê, aumentando o risco de depressão ou síndrome de estresse pós-traumático, por exemplo. Se uma mulher sofre abusos dentro de casa, cometidos por um parceiro íntimo, pode ter dificuldades para negociar práticas sexuais. Isso ocorre porque ela vive sob coerção e opressão exercidas pelo companheiro, o que pode levá-la a se sentir obrigada a aceitar relações sexuais mesmo sem desejo.
Pesquisar sobre o tema é sempre delicado, principalmente pelo grupo a ser investigado. “É um pouco difícil, por causa da própria natureza. Produzir esse conhecimento sobre violência é um pouco complicado, porque a grávida, a mulher em si, ela se sente envergonhada, ela se sente culpada, ela tem medo, ela tem todo o estigma da sociedade. Então, tudo isso são agravantes”, explica Rosângela.
Outra barreira que precisou ser ultrapassada diz respeito ao fato de que ainda existem lacunas na literatura sobre a relação entre esses aspectos. “A gente imaginou que teríamos muitas referências, porém, especialmente nesse tema que a gente resolveu pesquisar, notamos que na literatura existem pouquíssimas coisas relacionadas. Então, assim, por vezes foi bem desafiador, por causa da deficiência na literatura em relação a esse tema”, destaca Liendne.

Apesar de os dados encontrados terem apontado para uma ausência de relação direta entre uma possível violência praticada contra a mulher durante a gestação e o tempo de retorno das atividades sexuais, a Enfermagem, como ciência e profissão, desempenha um papel fundamental na investigação acerca do assunto, atuando em diversos serviços de atendimento e contribuindo para a produção científica.
Nesse sentido, o trabalho buscou contribuir para encontrar números que pudessem esclarecer melhor a questão, abrindo a discussão para que temas considerados tabus, como a violência contra a mulher e a sexualidade feminina, sejam investigados.
Sobre os resultados, Liedne Abreu ressaltou que, no campo científico, toda investigação pavimenta o caminho para que outros pesquisadores também se interessem pela temática:
"A gente considerou a pesquisa extremamente importante pelo fato de contribuir para a ampliação do conhecimento científico nessa área. Então, a gente considera que os resultados podem subsidiar a criação de programas de apoio para mulheres que enfrentam violência, principalmente, durante a gestação, e fornecer suporte também, tanto em relação à saúde física quanto em relação à saúde psicológica”.
Importância de receber o prêmio
A conquista do Prêmio Fapema 2024 foi recebida com grande emoção por parte das pesquisadoras, que destacaram o reconhecimento do trabalho como uma oportunidade de levar o tema ao conhecimento da sociedade.
Rosângela Fernandes enfatizou a relevância de tornar a pesquisa acessível para a comunidade e influenciar políticas públicas.
“Não foi só o reconhecimento do nosso trabalho, porque claro que na academia tem vários trabalhos interessantes, importantes para a sociedade, mas trazer esse tema à tona, eu acho que foi o principal reconhecimento. A gente está feliz porque está trazendo essa discussão para a sociedade”.
Já Liedne Abreu compartilhou a emoção ao ver seu trabalho reconhecido após anos de dedicação.
“Eu nem imaginava que poderíamos ganhar na categoria de Ciências da Saúde, de mestrado. Foi bem emocionante ver nosso trabalho reconhecido depois de dois anos de muita luta. Fiquei muito emocionada”, comemorou.
Pesquisas como essa cumprem um papel essencial ao evidenciar questões muitas vezes invisibilizadas pela sociedade e promover o debate e ampliar o conhecimento científico. Os estudos na área podem auxiliar na formulação de políticas públicas mais eficazes para garantir o bem-estar e a segurança das mulheres em situação de vulnerabilidade.
Por: Giovanna Carvalho
Produção: Ingrid Trindade
Fotos: arquivo pessoal
Revisão: Jáder Cavalcante