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Pesquisadora da UFMA publica estudo que propõe novas abordagens sobre superdotação e talento
Fernanda Fernandes ministra a disciplina de Neurociências no departamento de Biologia da UFMA. Foto: arquivo pessoal
Um estudo desenvolvido pela pesquisadora Fernanda Fernandes, vinculada ao Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ganhou destaque internacional ao propor uma nova abordagem para diferenciar os conceitos de superdotação e talento.
Intitulada “Potenciais invisíveis: uma estrutura neurocientífica para superdotação”, a pesquisa foi publicada na revista New Ideas in Psychology, referência internacional em estudos inovadores na área da psicologia, e apresenta uma distinção entre o potencial cognitivo elevado e a expertise desenvolvida por meio da prática.
Segundo a pesquisadora, que atua como professora do curso de Biologia da UFMA, a literatura brasileira ainda carece de uma diferenciação clara entre esses conceitos. “A minha pesquisa parte de uma constatação incômoda: o conceito de superdotação (giftedness) permanece impreciso tanto na literatura científica quanto na prática educacional, sendo frequentemente confundido com talento. Essa imprecisão tem consequências reais: amostras de pesquisa heterogêneas, resultados difíceis de comparar e replicar, e políticas educacionais inconsistentes entre regiões e países”, explica.
Há cerca de dois anos, Fernanda Fernandes desenvolve estudos que buscam fundamentar cientificamente a ideia de que a superdotação deve ser reconhecida como uma forma de neurodivergência, perspectiva ainda pouco explorada nas pesquisas sobre o tema, principalmente no âmbito da educação.
"Essa era uma lacuna que eu percebia na área. A superdotação não se restringe ao ambiente escolar: a pessoa já nasce superdotada, antes mesmo de entrar na escola, e continua sendo superdotada depois que sai dela. No entanto, o foco costuma estar muito voltado apenas para o período escolar, geralmente na perspectiva do desenvolvimento de talentos, e não para compreender suas necessidades como um neurodivergente não disfuncional dentro desse ambiente".
A principal contribuição do artigo é demonstrar que superdotação e talento são construtos distintos e não devem ser tratados como sinônimos. "Você não precisa ter uma capacidade cognitiva exacerbada ou super alta para ser talentoso em alguma área de interesse. A capacidade cognitiva média, que corresponde a cerca de 95% da população, já demonstra que as pessoas são capazes de desenvolver talentos. Ou seja, o talento surge a partir da prática deliberada e da intencionalidade, enquanto a superdotação é algo mais latente, consistente, uma capacidade biológica que nasce com você. Essa diferença está bem clara no artigo”, explica.

Artigo exemplifica os conceitos de superdotação e talento. Imagem: "Invisible potentials: A neuroscientific framework for giftedness" - Fernanda Fenandes.
De acordo com a pesquisa, a superdotação tem raízes biológicas que potencializam o processamento de informações pelo cérebro. Segundo Fernanda, a superdotação se apoia em três pilares neurobiológicos: a base genética e a realidade da inteligência geral (g), o desenvolvimento cortical atípico e a conectividade cerebral. A partir desses fundamentos, o processo percorre uma sequência que começa na arquitetura genética, passa pela maturação cortical, segue para a organização das redes cerebrais e culmina no processamento cognitivo mais eficiente.
Superdotação como neurodivergência
Segundo a pesquisadora, o estudo busca consolidar um novo paradigma científico que permita reconhecer e atender adequadamente pessoas com superdotação em diferentes contextos. Com a publicação do artigo, a expectativa é que essa abordagem contribua para ampliar o debate científico e sirva de base para a formulação de políticas públicas voltadas a esse público.
Fernanda acredita que essa mudança de perspectiva pode transformar a forma como pessoas com superdotação são identificadas, especialmente no ambiente escolar."Nós vamos ter uma mudança de perspectiva que ajuda em todos os setores. Ajuda na pesquisa, ajuda a pensar políticas públicas para esse público e ajuda em como atender esse público no ambiente escolar. Ou seja, eu começo a ter pesquisas que vão entender o funcionamento e o que melhor serve para esse público. A minha perspectiva é que isso possa trazer muitos benefícios para essa população em geral”, aponta.
A pesquisadora também destaca que uma definição científica mais consolidada favorece o reconhecimento internacional da superdotação."Quando a gente tem um conceito universal, todo mundo vai olhar para o mesmo fenômeno da mesma maneira. Uma pessoa identificada aqui no Brasil como superdotada por essa perspectiva do desenvolvimento de talento, ao chegar aos Estados Unidos ou à França, pode não ser reconhecida como superdotada. Mas, uma vez que ela é identificada como superdotada, ela é reconhecida como tal em qualquer lugar do mundo".
O artigo está disponível para acesso gratuito de forma on-line, clicando aqui.
A publicação do estudo em uma das principais revistas internacionais da área reforça o papel da Universidade Federal do Maranhão como instituição comprometida com a produção de conhecimento científico, capaz de promover o avanço da compreensão desse fenômeno e para a formulação de políticas públicas e práticas educacionais inovadoras.
Por: Agaminon Sales
Imagens: Fernanda Fernandes