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Pesquisa na UFMA propõe ensino de Arte inspirado no Tambor de Mina para fortalecer educação antirracista

publicado: 16/06/2026 15h06, última modificação: 16/06/2026 16h54
Dissertação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Ensino da Educação Básica (PPGEEB) transforma saberes da tradição afro-maranhense em ferramenta pedagógica
Pesquisa na UFMA propõe ensino de Arte inspirado no Tambor de Mina para fortalecer educação antirracista

Caderno pedagógico proposto para auxiliar docentes na abordagem da temática em sala de aula. Ilustrações: Marcos Durans

Em um estado com população majoritariamente parda e preta, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), discutir a presença das culturas de matriz africana nos espaços educacionais é também refletir sobre identidade, diversidade, pertencimento e cidadania. Nesse contexto, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) propõe novos caminhos para o ensino de arte a partir do tambor de mina, manifestação religiosa e cultural profundamente ligada à identidade maranhense.

A dissertação “O encantado na escola: caminhos pedagógicos para o ensino de Arte a partir do Tambor de Mina”, desenvolvida por Heriverto Nunes Mendonça Júnior no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Ensino da Educação Básica (PPGEEB), sob orientação da professora Maira Teresa Gonçalves Rocha, investiga como as performances das entidades caboclas do tambor de mina podem ser incorporadas ao currículo escolar, em consonância com a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.

O estudo buscou compreender de que maneira os rituais, saberes e as expressões artísticas presentes na tradição afrorreligiosa podem ser trabalhados como objetos de conhecimento no ensino de arte, contribuindo para práticas pedagógicas mais inclusivas, contextualizadas e comprometidas com o enfrentamento do racismo.

O trabalho ganha ainda mais relevância diante do cenário de intolerância religiosa no país. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania apontam que, somente em 2024, foram registradas 24 denúncias de intolerância religiosa e 31 violações de direitos no Maranhão por meio da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Historicamente, as religiões de matriz africana figuram entre os principais alvos desse tipo de violência.

Para Heriverto, a escola pode desempenhar um papel importante na desconstrução de preconceitos e na promoção do respeito à diversidade cultural e religiosa.

“É a forma de o professor e o seu alunado entenderem que existe uma diversidade lá fora — fora dos muros da escola, existe uma diversidade. Muitas vezes, há colegas de sala de aula que não se dizem da religião com medo do preconceito. Ficam calados ali na sua, diferente de outras religiões em que o pessoal é livre para falar e cantar, enfim. Eu acho que a pesquisa e o trabalho acadêmico servem para isso, servem para a sociedade”, afirma.

Segundo a orientadora da pesquisa, professora Maira Teresa Gonçalves Rocha, ao aproximar a escola de manifestações culturais historicamente invisibilizadas, a pesquisa contribui não apenas para o fortalecimento das práticas pedagógicas previstas na legislação educacional, mas também para a construção de ambientes escolares mais inclusivos, democráticos e atentos à diversidade que caracteriza a sociedade brasileira.

“A importância da pesquisa intitulada “O Encantado na Escola: caminhos pedagógicos para o ensino de Arte a partir do Tambor de Mina”, é evidenciar possíveis percursos a serem trilhados nos processos de ensino e aprendizagem no campo escolar, articulando cultura, performance e educação. Portanto uma educação voltada para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a valorização da diversidade cultural”, aponta a orientadora.

Heriverto Nunes Mendonça Júnior durante a defesa da dissertação. Foto: arquivo pessoal

Cultura maranhense como objeto de conhecimento

O tambor de mina é uma das mais importantes expressões religiosas e culturais do Maranhão. Surgido a partir das experiências das populações africanas escravizadas no Brasil, reúne elementos de diferentes matrizes culturais e desempenha papel significativo na construção da identidade maranhense, em especial na capital São Luís. “[O tambor de mina] fala muito da nossa identidade, não só nas cantigas, nas doutrinas dos encantados, mas também no modo de se comportar, na alimentação, tudo reflete muito o corpo do maranhense”, observa o pesquisador.

Apesar de sua relevância histórica e cultural, o tema ainda aparece de forma limitada nos ambientes escolares. Segundo o pesquisador, essa ausência motivou a elaboração do estudo.

“O principal viés da pesquisa foi justamente ser uma pesquisa de vanguarda. Ninguém nunca falou do tambor de mina em um contexto escolar, mas também uma pesquisa voltada para combater o racismo, uma pesquisa antirracista. Infelizmente, a gente observa o que tá acontecendo não só no Brasil, mas no mundo, em termos de intolerância, de violências e de crimes mesmo, por conta de cor. Então, a pesquisa também vem justamente com essa contribuição de discutir o antirracismo no ambiente escolar”, destaca.

Para Heriverto, a pesquisa nasce tanto de sua trajetória acadêmica quanto de sua vivência pessoal. O pesquisador estuda o Tambor de Mina desde 2009, quando iniciou sua atuação como bolsista de iniciação científica sob orientação do antropólogo Sérgio Ferretti, referência nacional nos estudos sobre religiões afro-brasileiras. Além disso, ele é integrante da tradição que pesquisa.

“Eu também venho de uma família de tambor de mina, de mineiros, que é assim que se chama os adeptos. Eu também sou mineiro e tenho uma casa de mina, que eu sou zelador, o dito pai de santo. Então, o objeto, ele tem muita familiaridade comigo, em todos os aspectos”, relata.

Aproximar ancestralidade, educação e produção científica reforça a importância do reconhecimento dos saberes tradicionais como parte legítima da produção de conhecimento. Para Heriverto, ampliar o diálogo sobre raça, cultura, gênero, classe social e religiosidade é um caminho necessário para a construção de uma educação mais inclusiva.

“É importante os gestores das escolas, os educadores, terem essa visão global, essa visão da diversidade, essa visão da raça, essa visão do gênero, essa visão da classe social na sua sala de aula, porque não dá para andar sozinho também. E dentro disso está religião, está cultura, está tudo entrelaçado. Então, que esses profissionais possam se abrir, falar sobre a cultura afro-brasileira. Não é um processo de conversão de ninguém para terreiro. É falar que o Brasil foi também construído com mãos negras, com mãos escravizadas”, defende o pesquisador.

Arte como instrumento de transformação social

A dissertação parte da compreensão da Arte como um campo capaz de promover reflexões sobre identidade, diversidade e direitos humanos. Nessa perspectiva, a proposta é ampliar as possibilidades de abordagem dos conteúdos previstos na legislação educacional a partir do estudo das performances rituais afro-brasileiras em sala de aula. Para Heriverto, a disciplina possui um potencial transformador que nem sempre é reconhecido.

“A arte é muito poderosa, ela consegue quebrar rochas. Mesmo na mente mais fechada ela consegue entrar. Então, a arte nunca é bem-vista. A gente tem uma aula por semana nas escolas, e, dentro dessa aula, a gente tem que se virar para dar todos os conteúdos que são obrigatórios. Temos que nos virar para fazer uma feira cultural, temos que nos virar para fazer tudo e quebrar essa questão de achar que o professor de arte é decorador de escola. O professor de arte é um pesquisador, é um profissional. A arte também se pesquisa de uma forma coletiva. Ela também é importante”, avalia.

O estudo, que foi desenvolvido por meio de abordagem qualitativa, com levantamento bibliográfico e investigação de campo realizada junto a nove docentes e buscou compreender a percepção dos professores sobre a aplicação da Lei nº 10.639/2003 e sobre o ensino das culturas afro-brasileiras no ambiente escolar, identificou dificuldades relacionadas à formação, ao acesso a materiais didáticos e à permanência de preconceitos que ainda cercam as culturas afro-brasileiras. O que chama atenção é que a implementação da lei e a abordagem dessas temáticas nas escolas continuam desafiadoras, mesmo após mais de duas décadas de vigência da legislação.

Como resposta a essa realidade, foi elaborado um caderno pedagógico voltado ao ensino da performance ritual afro-brasileira nas aulas de arte, destinado a auxiliar professores na implementação de práticas educativas alinhadas à legislação e à valorização da diversidade cultural. O material apresenta informações sobre o tambor de mina, orientações relacionadas à legislação educacional e propostas que podem auxiliar docentes na abordagem da temática em sala de aula.

Heriverto Nunes Mendonça Júnior e a orientadora Maira Teresa Gonçalves Rocha ladeados por outras professoras da banca examinadora. Foto: acervo pessoal

A construção de conhecimentos socialmente relevantes e com a valorização da diversidade cultural brasileira, oferecendo ferramentas para que educadores possam transformar a sala de aula em um espaço de reconhecimento, respeito e diálogo intercultural refletem o compromisso da universidade pública. Nesse sentido, a orientadora da pesquisa, Maira Teresa Gonçalves Rocha, destaca que o trabalho está alinhado ao compromisso da UFMA e do PPGEEB com a formação de profissionais capazes de enfrentar desafios da educação por meio da pesquisa aplicada.

“A Universidade Federal do Maranhão tem um papel importante na formação de profissionais em diferentes campos do saber. No âmbito do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Ensino da Educação Básica, promovemos a formação de profissionais comprometidos com a valorização da diversidade cultural ao incentivar pesquisas e a elaboração de produtos educacionais que, de uma forma ou de outra, possam contribuir para a solução de problemas relacionados ao ensino na Educação Básica”, finaliza a professora.

Para acessar o caderno pedagógico "O Encantado na escola - Arte, tambor de mina e culturas afro-indígenas" clique aqui.

 

Por: Ingrid Trindade

Fotos: arquivo pessoal

Ilustração: Marcos Durans [feitas especialmente para o trabalho]

Revisão: Jáder Cavalcante

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