Notícias
Pesquisa da UFMA propõe políticas públicas para o desenvolvimento sustentável em assentamento de Itapecuru Mirim
Pesquisadores do curso Geografia da UFMA desenvolveram estudo em assentamento de Itapecuru Mirim. Foto: acervo da pesquisa
Um estudo desenvolvido por pesquisadores do curso de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) traz novos horizontes para a reforma agrária no estado. Intitulado “Contribuições científicas aos Estudos Territoriais com Proposição de Políticas Públicas para o Desenvolvimento Sustentável”, o projeto realizou um diagnóstico profundo no Assentamento Cristina Alves, localizado em Itapecuru Mirim. A iniciativa, coordenada pelo professor Ronaldo Barros Sodré, articulou análises técnicas de solo e água com levantamentos socioeconômicos para subsidiar a criação de políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à melhoria da qualidade de vida das 130 famílias assentadas.
A pesquisa adotou uma abordagem participante, integrando estudantes e laboratórios de diferentes áreas da UFMA, como Química Industrial e Agronomia. O trabalho de campo concentrou-se nas agrovilas Dezessete de Abril, Cabanagem e Sete de Março, onde foram aplicados questionários em cerca de 60 residências. Um dos pontos centrais da investigação foi a análise da qualidade da água e do solo, motivada por queixas recorrentes dos moradores. Os resultados laboratoriais apontaram que, embora a água fosse considerada própria para o consumo em alguns parâmetros, havia uma presença elevada de coliformes totais e problemas no armazenamento.

Durante a pesquisa, foram aplicados questionários em cerca de sessenta residências do assentamento. Foto: acervo da pesquisa
A pesquisadora e egressa do curso de Geografia, Márcia Renata Santos, destaca que a vivência prática permitiu entender a realidade de quem depende diretamente da terra. “Como aluna, foi uma experiência muito interessante, porque, até então, como moradora de São José de Ribamar, com as minhas facilidades de acesso à água e nunca tendo dependido da agricultura, conhecer essa realidade e ir para o interior do estado permitiu viver tudo o que a gente aprende em sala de aula. A parte teórica ensina, mas a parte prática a gente vive. Eu pude entender as dificuldades que eles enfrentam em relação ao acesso à água e à produção de alimentos em um solo que exige um manejo mais delicado", relatou Márcia.
As análises de solo, enviadas para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), revelaram uma deficiência crítica de zinco, o que prejudicava as plantações de arroz, principal sustento da comunidade. Com os laudos em mãos, a equipe pôde orientar os agricultores sobre a correção adequada do solo.
Articulação política e o papel social da Universidade
Para além dos dados técnicos, a pesquisa mapeou as carências de infraestrutura, saneamento básico e comunicação. O estudo identificou que o isolamento e as más condições das estradas dificultam o acesso à saúde e ao transporte. O projeto buscou dialogar com a gestão municipal de Itapecuru Mirim para apresentar essas demandas, embora a continuidade do diálogo tenha enfrentado desafios devido a mudanças políticas locais. A pesquisa está inserida no projeto Pró-humanidades, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e integra a Rede DATALUTA, que estuda políticas públicas aplicadas a assentamentos rurais em todo o Brasil.
O coordenador da pesquisa, professor Ronaldo Barros Sodré, ressalta que o objetivo foi dar um retorno concreto para a comunidade, superando a barreira de pesquisas que permanecem apenas no ambiente acadêmico. “Essa pesquisa tem uma grande relevância porque mostra o potencial das pesquisas na área de ciências humanas em articulação com outras áreas do conhecimento. Não se trata apenas de uma pesquisa, mas também de um trabalho de extensão. A extensão é muito importante para que a gente possa fazer com que a sociedade reconheça a Universidade. Nossos projetos têm tido essa preocupação de fazer a pesquisa com as comunidades e, na medida do possível, dar algum retorno dentro das nossas limitações", afirmou o coordenador.

A iniciativa também articulou análises técnicas de solo e água das agrovilas. Foto: acervo da pesquisa
Um dos momentos mais significativos do projeto foi a entrega dos resultados aos moradores do assentamento em dezembro de 2025. Na ocasião, foram apresentados laudos físico-químicos e bacteriológicos da água, além de orientações práticas sobre a limpeza de bombas e caixas d’água para evitar doenças, como a disenteria. A recepção foi positiva, especialmente, pelo fato de os assentados terem recebido documentos técnicos que comprovam as necessidades do território, servindo de instrumento para futuras reivindicações junto aos órgãos governamentais.
A pesquisa também gerou frutos acadêmicos e de divulgação científica em escala nacional. Os dados coletados no Maranhão farão parte de um livro organizado por professores que participaram do projeto Pró-Humanidades, além de uma cartilha informativa que será distribuída às comunidades. A divulgação também ocorreu por meio de podcasts e mídias universitárias, reforçando o compromisso do Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino em Geografia (LEPENG) com a produção de conhecimento que dialogue com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) e fortaleça o protagonismo dos movimentos sociais no campo.
Por: Geovanna Selma
Produção: Ingrid Trindade
Fotos: acervo da pesquisa
Revisão: Jáder Cavalcante