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Pesquisa da UFMA Imperatriz sobre mulheres negras no jornalismo vence maior prêmio de dissertação em comunicação do Brasil

publicado: 19/05/2026 15h21, última modificação: 19/05/2026 17h04
A pesquisadora Michely Alves propõe teoria que busca compreender como estigmas sociais reforçam desigualdades estruturais no mercado de trabalho
Pesquisa da UFMA Imperatriz sobre mulheres negras no jornalismo vence maior prêmio de dissertação em comunicação do Brasil

Uma pesquisa da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Câmpus Imperatriz, é finalista no prêmio da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS) 2026, que reconhece as melhores dissertações e teses na área de comunicação. O estudo investiga as experiências de mulheres negras no jornalismo brasileiro e revela como o racismo estrutural, o sexismo e a xenofobia criam barreiras estruturais e emocionais severas para essas profissionais.

O trabalho intitulado “A dor também tem nome de mulher: um olhar sobre identidade, desafios e enfrentamentos das jornalistas negras no Brasil” foi conduzido pela mestranda Michely Alves, sob orientação da professora Thaísa Bueno, e desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM). Segundo a pesquisadora, o processo de investigação trouxe luz a outras questões que reforçam a violência experienciada por jornalistas negras dentro das redações.  

“Com base nas entrevistas, achávamos que íamos encontrar apenas questões de racismo e sexismo, mas fomos percebendo que a realidade era muito pior. Era xenofobia, de sotaque, de ser a única negra do espaço, ou a cota do Norte e Nordeste preenchida numa redação jornalística do Sul. Se outra pessoa do sul quisesse entrar na redação, já não podia mais porque a ‘cota do norte e nordeste’ já estava preenchida”, detalha a pesquisadora.  

Pesquisadora Michely Alves propõe nova abordagem teórica sobre gênero e raça no jornalismo.

Proposta teórica inovadora  

A pesquisadora criou a “teoria da estigmatização interseccional no jornalismo” para mostrar como estigmas ligados à etnia, gênero, aparência, idade e classe se cruzam e reforçam desigualdades no mercado de trabalho. Baseada nos conceitos de estigma (Erving Goffman) e interseccionalidade (Kimberlé Crenshaw), a teoria evidencia que as discriminações sofridas pelas jornalistas não são casos isolados, mas resultado de uma estrutura que se intensifica pelo cruzamento dessas identidades sociais.  

“A teoria vai enxergar essas desigualdades simbólicas que podem impactar na trajetória dessas profissionais. É uma proposta teórica e como teoria a gente tem que ir testando ela. Mas a proposta é entender que o estigma não está na pessoa, que são estruturas sociais bastante qualificadas dentro do jornalismo, e que essa violência simbólica é atravessada por questões de estereótipos”, explica Michely.  

Para a orientadora da pesquisa, Thaísa Bueno, a proposta desenvolvida por Michely vai além da análise discursiva e ajuda a promover uma reflexão crítica entre os jornalistas acerca da própria estrutura midiática. “Criar uma proposta teórica normalmente se faz no doutorado e eu acredito que esse ponto culminou no reconhecimento do trabalho da Michely. Não é apenas uma análise do discurso, não é uma análise de conteúdo, e o diferencial desse trabalho, para além dos achados, é que ele resulta na reflexão teórica sobre como se constrói e como se mantém essa mídia aqui. Rebate tanto o racismo, mas que é tão racista na sua estrutura”, afirma.  

Orientadora da pesquisa e professora da UFMA, Thaisa Bueno.

Acesse a dissertação completa aqui.

Reconhecimento e perspectivas  

A pesquisa foi selecionada como a melhor dissertação de mestrado no prêmio COMPÓS, que será realizado durante o 35° Encontro Anual da COMPÓS, entre os dias 9 e 12 de junho de 2026, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal. A dissertação destaca a importância da ciência produzida no interior do Maranhão e convida o mercado de comunicação a realizar uma autocrítica sobre suas desigualdades.  

Para Thaísa, o prêmio traz à tona a necessidade de repensar as estruturas e formular estratégias para a mitigação dos problemas de desigualdade enfrentados por mulheres negras nas redações jornalísticas do país. “Acho que essa dissertação desperta esse olhar na imprensa. A mesma medida que a gente usa para fazer as nossas denúncias, a gente tem que ter coragem para olhar as nossas mazelas. Olhar para dentro e repensar nossas próprias estruturas, então acho que é um momento de reflexão tão difícil para o jornalismo”, aponta a professora.  

A autora da dissertação, Michely Alves, reforça que a pesquisa acadêmica serve como ferramenta de resistência e fortalecimento identitário para ajudar na transformação da realidade social. “Eu acho que [a pesquisa] mostra que ocupar esses espaços não significa estar livre, mas que é preciso olhar para essas estruturas que mudam essas oportunidades. Que o campo jornalístico reflita criticamente sobre os padrões de como se faz o próprio jornalismo, de como se retrata e trata os jornalistas desse campo, que precisam se provar constantemente que merecem estar ali dentro”, conclui.  

O reconhecimento da pesquisa no maior prêmio da área reforça a relevância da produção científica realizada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e evidencia a urgência de debates sobre diversidade e equidade no jornalismo brasileiro. Mais do que um título acadêmico, o trabalho se torna um marco para que a comunicação avance em direção a práticas mais inclusivas e transformadoras.  

Por: Agaminon Sales

Fotos: acervo pessoal

Revisão: Jáder Cavalcante

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