Notícias

Pesquisa da UFMA estuda, de maneira inovadora, a interação entre consumo de açúcares adicionados e doenças crônicas ao longo da vida

publicado: 13/05/2026 13h24, última modificação: 13/05/2026 13h24
Pesquisa da UFMA estuda, de maneira inovadora, a interação entre consumo de açúcares adicionados e doenças crônicas ao longo da vida

Os primeiros mil dias de vida, desde a gestação aos dois anos de idade, são fundamentais para a saúde de uma vida inteira. É nessa perspectiva e promovendo um olhar  para o cuidado integrado na área de saúde bucal, que a tese de doutorado “Consumo de bebidas ricas em açúcares de adição: investigando as redes de interação das doenças crônicas não transmissíveis bucais e sistêmicas nos ciclos da vida”, realizada pelo discente Silas Costa, do Programa de Pós-Graduação em Odontologia (PPGO), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), levanta questionamentos inéditos no estudo de enfermidades orais e conexões com outras enfermidades, explorando fatores de risco em um campo mais amplo nos âmbitos biológicos e sociais. A pesquisa contou com a orientação da professora Cecília Ribeiro e coorientação de Bruno de Sousa e Fábio Leite.

É trabalhada a problemática das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), com base em abordagens complexas investigando a cadeia de ligações feitas desde a gestação até a vida adulta. Essa análise permite compreender o surgimento de enfermidades e suas causas, tais como o sobrepeso, asma, doenças cardiovasculares e até questões cognitivas, debruçando o estudo sobre fatores de risco comportamentais e metabólicos, enfatizando o impacto do consumo de açúcares de adição pela exposição precoce na infância, principalmente em líquidos, e a periodontite como ponto de alerta.

De acordo com os pesquisadores, ao longo da história médica, doenças crônicas e saúde bucal nunca antes foram tratadas em conjunto, apesar de estarem conectadas por fatores de risco em comum. A tese evidenciou analiticamente que essa ponte é mais extensa do que o pensado usualmente; houve a identificação de um ponto de conexão central, entre as patologias, revelando a cárie como essa ligação.

Pesquisadores Silas Costa e Cecília Ribeiro. Foto: acervo pessoal 

A pesquisa utilizou metodologias avançadas de análise, combinando dados epidemiológicos nacionais e internacionais, como o Global Burden of Disease e o NHANES III, com modelos de redes complexas capazes de identificar conexões não lineares entre doenças e fatores de risco.

A orientadora da tese, professora Cecília Ribeiro, detalha o funcionamento da pesquisa após a inclusão das redes complexas na realização do cronograma de estudos.“As redes complexas trazem um novo olhar para essas relações, especialmente, porque, quando a gente observa relações entre doenças crônicas, acaba vendo-as de duas a duas. Quer ver um desfecho e uma exposição. Com as redes complexas, a gente vê a relação de tudo com tudo. Vê o que é mais central, quais são os pontos de intervenção que são importantes”.

Os resultados revelaram que a cárie dentária ocupa uma posição central nessas redes, funcionando como um ponto de conexão entre diferentes condições de saúde. Ainda na infância, a cárie se associa a problemas como obesidade e asma; ao longo da vida, essas conexões se ampliam, incluindo doenças como diabetes, depressão e condições cardiovasculares. Outro achado relevante foi o aumento da prevalência de periodontite no Brasil a partir de 2005, associado não apenas a fatores tradicionais, mas também ao consumo de bebidas açucaradas e a alterações metabólicas, como obesidade, dislipidemia e hiperglicemia.

Adolescência e primeiros 1.000 dias: janela crítica

A tese também identifica momentos-chave para intervenção ao longo da vida. Na adolescência, fatores como alto consumo de açúcar, resistência à insulina e vulnerabilidade socioeconômica aparecem como os principais “nós” da rede, influenciando o desenvolvimento de doenças crônicas.

No contexto de observação desde os primórdios de vida, a tese utilizou de um método chamado Índice de Jaccard na identificação de padrões de conjunção, o estudo utilizou dados da Coorte BRISA Pré-Natal, em São Luís (N=1.383), explorando a análise de saúde bucal de grávidas desde a 22ª semana a 25ª semana de gestação, no nascimento, no momento de nascimento e no segundo ano de vida da criança.  O resultado foi a indicação de forte relação entre os fatores analisados, surgindo como conexão o alto consumo de alimentos ultraprocessados, bebidas ricas em açúcares, vulnerabilidade socioeconômica e cárie dentária durante a gravidez.

No segundo ano de vida, foram identificados outros pontos centrais de encontro, como a exposição a açúcares, alergias e aleitamento materno não exclusivo. Os fatores de riscos praticados durante o período de 1.000 dias de vida dão vazão ao ciclo das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) nessas crianças, causando o surgimento de alergias, asma, obesidade infantil, anemia e possibilitando problemáticas mais graves ao longo da vida adulta como diabetes e questões cardiovasculares.

O pesquisador da UFMA Silas Costas detalha a perspectiva de sua tese em trabalhar as enfermidades de maneira conjunta e sem compartimentar a saúde em nichos, destacando o impacto da dieta com ultraprocessados desde as fases iniciais da vida e o dentista como importante figura na prevenção de maiores problemáticas na maturidade.

“A gente fala 'isso aqui é doença cardiovascular, isso é com o neurologista, isso é com dentista', e acaba fechando em núcleos, e não conversando entre si, mas, na verdade, essas doenças já estavam todas interligadas, desde muito cedo. E, quando a gente começa a ver que as doenças crônicas estão relacionadas entre si, e que a cárie é a principal doença crônica da infância, observa que o dentista consegue interferir nesse rol de doenças crônicas desde cedo, porque a cárie é muito fácil de você observar, não precisa de um exame sofisticado, não precisa de nada disso. O dentista acaba sendo uma peça fundamental nesse diagnóstico de doenças crônicas, porque, se a criança tem doença crônica, ela está comendo muito açúcar e, se está comendo muito açúcar, vai começar a acumular doenças crônicas. Ela mantém esse hábito e acaba acumulando doenças crônicas ao longo de toda a vida”, salienta.

Silas Costa é discente do Programa em Pós-Graduação em Odontologia (PPGO) - UFMA. Foto: acervo pessoal

No estudo, é evidenciada a atenção para a necessidade da realização de um cuidado odontológico mais aprofundado para com as gestantes e fetos, que amplie o campo de investigação além da normalidade.

"A gente vem numa linha de pensamento que é um pouco diferente do que é habitual, de que o pré-natal odontológico serviria apenas para tratamentos da gestante e para prevenção de condições mais relacionadas à infecção {...}, mas a gente viu, por exemplo, que o parto prematuro estava bastante associado com o consumo de açúcar, em vez de ela ter uma simples periodontite, que é uma inflamação gengival. O consumo de açúcar e de ultraprocessados foram dois pontos bem importantes que apareceram nas nossas redes, estavam bastante relacionados ao parto prematuro, ao parto cesariano,  que tem um outro olhar, e que a gente já deve ir desenvolvendo nas unidades de saúde a que nós estamos vinculados, essa ideia de pré-natal odontológico", ressalta a docente Cecília Ribeiro.

 Impacto global e projeções até 2050

A pesquisa também analisou tendências globais do consumo de bebidas açucaradas com base em dados de mais de 200 países. Em 2021, cerca de 30,56% da população mundial apresenta alto consumo dessas bebidas, com maior concentração na América Latina. As projeções indicam um aumento de aproximadamente 9,5% até 2050, o que pode ampliar significativamente a carga de doenças crônicas, expressa em indicadores como mortalidade e anos de vida perdidos por incapacidade (DALYs).  

Ciência aplicada à prática

A tese de Silas Costa resultou no lançamento de um material prático baseado na Teoria das Origens do Desenvolvimento da Saúde e da Doença (DOHaD), destinado a cirurgiões-dentistas na prevenção e no cuidado primário de saúde bucal. O e-book foi publicado em português e inglês, pela Editora da Universidade Federal do Maranhão (EDUFMA), e foi organizado pelas professoras Cecília Ribeiro, Ana Estela Haddad e Emília de Oliveira.

A publicação destaca quatro eixos principais: a cárie como evento sentinela, os riscos do consumo de açúcares, o papel do microbioma e a importância do aleitamento materno como fator protetor.

“A amamentação é um fator bastante protetor, porque se a criança está bem-alimentada e tem acesso à amamentação, ela acaba sendo protegida, por exemplo, de consumir produtos industrializados ou ricos em açúcar, como papas, mingau, sopas processadas e ultraprocessadas, que são alimentos não saudáveis. Esse paladar da criança, nós acreditamos que ele começa a ser moldado desde esse começo. Por isso que uma das políticas que nós adotamos e que são recomendações internacionais, é a de que a criança não consuma nenhum açúcar de adição até os dois anos de idade, porque vários estudos já mostram que crianças que não consomem têm menos chance de risco de doenças cardiovasculares no futuro, têm menos risco de diabetes, menos risco de obesidade e de hipertensão. Esse momento é o que a gente chama de plasticidade do fenótipo, é o momento em que ele está sendo moldado”, explica Silas Costa.

Reconhecimento 

Em reconhecimento, a tese de Sila Costa foi vencedora em 1º lugar no Fórum Científico do Congresso DOHaD Brasil (Campinas, 2024), 2º lugar no Fórum Científico da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (Campinas, 2024), IADR GOHIRN Travel Award for New Investigator (Barcelona, 2025), concedido pelo IADR Global Oral Health Inequalities Research Network, Travel Award concedido no 13th World Congress on DOHaD (Buenos Aires, 2025) e do Prêmio FAPEMA 2025 de Melhor Tese de Doutorado na área da Saúde.

A pesquisa foi premiada no Prêmio Fapema 2025 na categoria Melhor Tese de Doutorado na área da Saúde. Foto: DCom

O pesquisador destaca a globalização de fatores no cuidado médico como mensagem principal de seu estudo e ressalta o papel do profissional em odontologia na sociedade moderna, dando ênfase ao alinhamento com os objetivos de desenvolvimento sustentável.

“A mensagem que mais se ressalta na tese é de que a saúde é integral, nós lidamos com o ser humano como um todo, inclusive nos engajando em condições que, às vezes, não estão no nosso radar. Por exemplo, a questão da vulnerabilidade, que são questões maiores do que o profissional de saúde, ele pode fazer ali, atingir na ponta, mas que ele tem que estar engajado e saber da realidade do paciente, do indivíduo como um todo. Saber se ele está numa situação de vulnerabilidade, ele tem todas as questões que estão circundando essa vulnerabilidade, mas também o consumo de açúcar, se a pessoa está consumindo muito açúcar, ela vai ter não só cárie, vai ter várias outras coisas. O dentista está muito acostumado a restaurar, indicar a escovação, cuidar de problemas locais, mas não tem como você colocar uma massinha no diabetes, não tem como você colocar uma massinha no coração, porque essa pessoa vai continuar consumindo e por mais que ela tenha o dente restaurado, se o hábito não mudar, ela vai ter outras condições", frisa Silas.

A professora Cecília Ribeiro reflete sobre a junção de fatores e a operação do profissional em odontologia diante das problemáticas de atenção básica na saúde bucal. "A tese dele nos mostra essa visão de integralidade do cuidado necessário e nos oportuniza a dar recomendações que o cuidado deve iniciar desde os primeiros mil dias de vida, com a sensibilidade do cuidado da gestante e da criança, logo nos dois primeiros anos. E, depois, essa compreensão do espaço, que o dentista precisa ocupar, a compreensão de que as doenças bucais estão numa caixa de outras condições crônicas, que não podem ser mais ignoradas, nem pelo profissional da odontologia nem pela equipe multidisciplinar. O dentista tem que ocupar esses espaços dessa compreensão de integralidade do cuidado", finaliza.

A tese está disponível no repositório on-line da Universidade Federal do Maranhão (clique aqui).

O estudo reforça o compromisso da UFMA com a pesquisa científica de excelência, que gera contribuições para a sociedade, por meio de reflexões e estímulos a políticas públicas voltadas a hábitos mais sustentáveis. Celebrando a formação de profissionais com uma visão integrada do cuidado físico, articulando diversas esferas da saúde.

Por: Elcyane Ayres

Produção: Sarah Dantas

Fotos: acervo pessoal 

Revisão: Jáder Cavalcante

error while rendering plone.belowcontenttitle.contents
registrado em: