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Pesquisa da UFMA aponta potencial da goma do cajueiro na proteção contra desgaste dentário causado por refluxo
Pesquisadores da UFMA e da UFDPar desenvolvem estudo sobre o potencial da goma do cajueiro na proteção da dentina. Foto: acervo pessoal
Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Odontologia (PPGO) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em parceria com a Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), identificou o potencial do polissacarídeo da goma do cajueiro na proteção da dentina contra o desgaste causado pela Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE). Publicado em formato de artigo científico na revista internacional Archives of Oral Biology, o trabalho aponta o material sustentável como uma alternativa inovadora para o desenvolvimento de futuros produtos odontológicos voltados à preservação dental.
De acordo com a coordenadora da pesquisa e docente do PPGO-UFMA, Leily Macedo Firoozmand, a iniciativa partiu da busca por soluções inovadoras e sustentáveis utilizando a biodiversidade regional. “A ideia surgiu do controle da erosão dentária por meio de recursos locais. A parceria entre pesquisadores do PPGO-UFMA e o PPGBiotec-UFDPar permitiu unir a experiência clínica em Odontologia com o conhecimento biotecnológico sobre os polissacarídeos extraídos da goma do cajueiro, investigando seu potencial para compor formulações capazes de proteger os dentes contra processos erosivos”, explica a docente.
O que é o refluxo gastroesofágico? O refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma condição em que o conteúdo ácido do estômago retorna ao esôfago devido ao funcionamento inadequado do esfíncter esofágico inferior, estrutura responsável por impedir o refluxo. Esse quadro pode causar sintomas como azia e irritação da mucosa esofágica, e está associado a fatores como obesidade, alimentação inadequada, tabagismo, consumo excessivo de álcool e uso de determinados medicamentos. Quando não tratado, o problema pode evoluir para complicações mais graves, como esofagite, estreitamento do esôfago e até câncer esofágico.
Além dos impactos no sistema digestivo, o DRGE pode comprometer a saúde bucal. A exposição frequente dos dentes ao ácido gástrico favorece a erosão do esmalte dental, aumentando a sensibilidade, o risco de cáries e o desconforto ao consumir alimentos ou bebidas quentes, frios e ácidos. O refluxo também pode irritar os tecidos gengivais e contribuir para o mau hálito, fatores que afetam diretamente a saúde oral e a qualidade de vida dos pacientes.
Potencial da goma do cajueiro para o tratamento
Para verificar a eficácia da substância, os pesquisadores simularam em laboratório as condições enfrentadas por dentes expostos ao refluxo gastroesofágico. Blocos de dentina humana foram divididos em três grupos: um sem tratamento, outro tratado com verniz dental fluoretado comercial e um terceiro tratado com o extrato do polissacarídeo da goma do cajueiro. As amostras foram submetidas a ciclos erosivos que reproduziram a ação do ácido gástrico e da pepsina, enzima presente no estômago.
Os resultados mostraram que o grupo tratado com a goma do cajueiro apresentou melhor desempenho na preservação da estrutura dentária. Houve redução significativa da rugosidade superficial e maior manutenção da microdureza da dentina, indicador relacionado à resistência do tecido dental. Além disso, análises computacionais sugeriram que a substância pode interagir com enzimas envolvidas na degradação da dentina, contribuindo para um efeito protetor adicional.

O avanço científico contou com uma sólida rede de colaboração interinstitucional, envolvendo os pesquisadores Lucas Antonio Duarte Nicolau e Durcilene Alves da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Biodiversidade (BIOTEC) da UFDPar. O impacto e a relevância da proposta foram consagrados pelo Banco da Amazônia, que selecionou a iniciativa entre os vinte melhores projetos financiados em edital de pesquisa e inovação de 2024.
Para Leily Firoozmand, os resultados reforçam o papel da Universidade na produção de conhecimento científico com potencial de impacto social. “Esse resultado representa o fortalecimento da pesquisa de excelência desenvolvida na UFMA e demonstra a capacidade da Universidade de gerar conhecimento com impacto social, tais como o resultado da 1ª publicação nesta linha de pesquisa e potencial de inovação. O reconhecimento do projeto pelo Banco da Amazônia evidencia a relevância científica da iniciativa. Além disso, a parceria com a UFDPar reforça a integração entre universidades federais do Nordeste, ampliando a produção científica, a formação de recursos humanos qualificados e o desenvolvimento de tecnologias voltadas às necessidades da população”, destaca.
Para o doutorando em Odontologia da UFMA e integrante da pesquisa, Mayron Guedes Silva, o trabalho demonstra a capacidade da instituição de transformar recursos naturais da região em inovação científica.
“Essa pesquisa evidencia ainda mais o potencial da UFMA para desenvolver pesquisas inovadoras a partir da valorização da biodiversidade e dos recursos naturais da nossa região. Mostrar que uma universidade pública do Maranhão pode produzir conhecimento relevante, com qualidade científica e potencial de impacto para a sociedade, é motivo de orgulho. Além disso, reforça a importância do investimento na educação e na universidade pública, pois é nela que muitas ideias são construídas e transformadas em saúde e em qualidade de vida para a população”, ressalta.
Futuro do projeto
Com os resultados promissores obtidos até o momento, a equipe já trabalha nas próximas etapas da pesquisa. A expectativa é aprofundar os estudos para viabilizar o desenvolvimento de produtos odontológicos à base da goma do cajueiro.

Goma do cajueiro em estado sólido. O material é um biopolímero natural extraído do cajueiro e utilizado em pesquisas científicas. Foto: acervo pessoal
“Os próximos passos envolvem o avanço no desenvolvimento das formulações odontológicas contendo a goma do cajueiro, incluindo testes que comprovem a viabilidade técnica e a eficácia na prevenção e controle da erosão dentária diante da simulação de condições experimentais clínicas. A colaboração entre as instituições também prevê o uso de técnicas avançadas e avanço científico, para aprofundar a compreensão dos mecanismos de ação dessas formulações”, afirma Leily Firoozmand.
Novas possibilidades
Os achados abrem perspectivas para a criação de vernizes, géis, enxaguatórios bucais e cremes dentais voltados principalmente para pessoas que apresentam desgaste dentário decorrente da erosão. Futuras aplicações poderão beneficiar, especialmente, indivíduos afetados pelo refluxo gastroesofágico e por outros fatores relacionados ao desgaste dental.
A expectativa dos pesquisadores é gerar evidências científicas robustas que permitam, no futuro, disponibilizar a tecnologia à população. Por se tratar de uma matéria-prima abundante no Brasil, a goma do cajueiro também apresenta potencial para contribuir com o desenvolvimento de soluções odontológicas mais acessíveis, ao mesmo tempo em que valoriza os recursos naturais da Região Nordeste.
Com iniciativas como essa, a UFMA reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento científico, a inovação e o desenvolvimento de soluções capazes de impactar positivamente a saúde e a qualidade de vida da população. O artigo científico que apresenta os resultados da pesquisa está disponível na revista Archives of Oral Biology e pode ser acessado clicando aqui.
Por: Byanca Santos Lima
Fotos: acervo pessoal
Revisão: Jáder Cavalcante