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Pesquisa da UFMA analisa Museu Casa do Tambor de Crioula como espaço de educação antirracista e resistência cultural
Museu Casa do Tambor de Crioula, no Centro Histórico de São Luís, Maranhão. Foto: Handson Chagas/Governo do Maranhão
Dedicado a uma das mais vibrantes expressões culturais do Maranhão, o Museu Casa do Tambor de Crioula foi objeto de uma pesquisa desenvolvida no curso de Pedagogia do Centro de Ciências de Codó, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e que culminou com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Joerlison Roniere Farias Souza, sob orientação do professor Danilo Araujo de Oliveira, abordando o local como espaço de educação antirracista, preservação da memória e valorização da cultura afro-brasileira no Maranhão.
Os resultados da pesquisa foram sistematizados no artigo intitulado “Currículo, Cultura e Educação Antirracista: cartografia étnico-racial no Museu Casa do Tambor de Crioula”, publicado na Revista Teias, periódico classificado como Qualis A1, o mais elevado nível de excelência científica atribuído pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A pesquisa
“De que maneira o museu incorpora e aborda as questões étnico-raciais em suas exposições e práticas?" Foi a partir dessa questão, que o autor buscou compreender o museu não apenas como um espaço expositivo, mas como um território educativo que produz saberes, constrói narrativas e forma modos de ver o mundo.
Inspirado nas teorias pós-críticas de currículo e nos estudos culturais, o trabalho desenvolveu o conceito de “currículo-museu”. A ideia central é que a educação acontece na sala de aula e em espaços culturais que organizam discursos, memórias e experiências.
Nesse sentido, o Museu Casa do Tambor de Crioula foi analisado como um espaço que ensina sobre identidade, ancestralidade, espiritualidade e pertencimento, que fortalece a memória afro-brasileira e reafirma práticas culturais historicamente marcadas pela resistência.
Representação da roda do Tambor de Crioula. Foto: arquivo dos autores
Para o orientador, Danilo Araujo de Oliveira, compreender o papel educativo desses espaços é fundamental em um país marcado por profundas desigualdades raciais. “A importância da pesquisa está em evidenciar que a educação antirracista não acontece apenas na sala de aula. Ela também se dá em espaços culturais, como museus, que valorizam a história e a cultura afro-brasileira”, destaca.
A pesquisa, que foi iniciada em 2023 e defendida em agosto de 2024, no âmbito do Grupo de Pesquisa Questões e Políticas de Currículo, coordenado por Danilo, utilizou elementos da cartografia como estratégia metodológica. Em vez de aplicar um método rígido, os pesquisadores acompanharam processos, experiências e interações no espaço museal, mapeando como objetos e imagens produzem sentidos sobre cultura, raça e identidade.
Quatro artefatos foram selecionados para análise: a representação da roda do Tambor de Crioula; as vestimentas tradicionais; os tambores (crivador, meião e rufador) e a imagem de São Benedito, santo de forte devoção nas comunidades afro-brasileiras.
A partir desses elementos, o estudo investigou quais histórias são contadas, quais memórias são valorizadas e que aprendizagens são mobilizadas no espaço.
São Benedito, santo homenageado nas rodas de Tambor de Crioula. Foto: arquivo dos autores
Resultados e impactos
Os resultados indicam que o museu não apenas preserva objetos, mas produz conhecimentos e subjetividades. Ele opera como um espaço de letramento museal, promovendo uma leitura crítica da história afro-brasileira e desafiando narrativas que, muitas vezes, invisibilizam a contribuição negra na formação do Brasil.
Entre os principais impactos identificados pela pesquisa, estão:
- valorização da identidade afro-brasileira;
- fortalecimento de práticas educativas antirracistas;
- ampliação do entendimento de currículo para além da escola;
- consolidação do museu como espaço de transformação social.
Para além de evidenciar que currículos estão presentes também em espaços culturais, o estudo contribui para o campo da educação e amplia as possibilidades de enfrentamento ao racismo por meio da memória, da cultura e da produção de conhecimento.
O reconhecimento da pesquisa em um periódico de excelência reforça a qualidade da produção acadêmica da UFMA e demonstra o potencial das pesquisas de graduação para alcançar impacto nacional, ampliando o debate sobre educação antirracista e valorização da cultura afro-brasileira.
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Saiba mais
O Tambor de Crioula é considerado uma das expressões mais vivas da cultura maranhense, com dança e ritmo afro-brasileiro, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN desde 2007.
Símbolo de alegria e resistência histórica do povo negro, o tambor de crioula caracteriza-se por rodas de mulheres (coreiras) dançando ao som de tambores artesanais (parelha) e matracas, geralmente, em homenagem a São Benedito. A festa é marcada pela "punga" (umbigada).
O Tambor de Crioula é celebrado em 18 de junho.
Por: Ingrid Trindade
Fotos: arquivo dos autores
Revisão: Jáder Cavalcante