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Pesquisa da UFMA analisa como memes e novelas ajudam a traduzir conteúdos jurídicos nas redes sociais

publicado: 11/06/2026 10h21, última modificação: 11/06/2026 12h06
Pesquisa da UFMA analisa como memes e novelas ajudam a traduzir conteúdos jurídicos nas redes sociais

A pesquisa foi premiada no prêmio Fapema 2025 na categoria Jovem Cientista em Linguística, Letras e Artes

A intertextualidade é o diálogo ou a relação que um texto estabelece com outro já existente. Ela pode ocorrer de forma verbal, escrita ou falada, e também de maneira não verbal, por meio de músicas, pinturas, filmes, fotografias e outros produtos culturais, exigindo que o leitor reconheça essas referências para compreender plenamente os sentidos produzidos. 

Esse fenômeno foi objeto de estudo do mestrando Ozéias Evangelista de Oliveira Junior, no Programa de Pós-Graduação em Letras (PGLetras) pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Desenvolvida sob a orientação da professora do curso de Letras e do PGLetras Maria da Graça dos Santos Faria, a pesquisa resultou no trabalho “Intertextualidade e argumentação pedagógica na didatização de assuntos jurídicos em postagens da Defensoria Pública do Estado do Maranhão”.

O trabalho, que conquistou o primeiro lugar na categoria Jovem Cientista em Linguística, Letras e Arte do prêmio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), investigou o perfil no Instagram da Defensoria Pública do Estado do Maranhão e analisou como a instituição utiliza referências da cultura pop, novelas e outros produtos midiáticos para aproximar conteúdos jurídicos da população por meio das redes sociais. 

Da linguagem jurídica à linguagem do cotidiano 

As redes sociais transformaram-se em um instrumento fundamental de comunicação na gestão pública contemporânea. Essas plataformas digitais não são apenas canais de disseminação de informação, mas ferramentas estratégicas que fortalecem a conexão entre gestores públicos, instituições e cidadãos. O impacto desses meios digitais é particularmente notável no contexto brasileiro, em que a interação nas redes sociais revela uma dinâmica única.

Por meio de postagens, transmissões ao vivo, enquetes e interações nas redes sociais, é possível estabelecer um contato direto com as pessoas e entender suas demandas, opiniões e preocupações. No campo jurídico, onde termos técnicos e jargões, o famoso “juridiquês”, costumam afastar o público leigo, essa mudança tornou-se uma necessidade democrática. 

Ozéias conta que essa busca por quebrar as barreiras da comunicação pública motivou o início do seu trabalho. “O que me motivou foi tentar entender como, dentro da internet, as instituições públicas tentavam facilitar o acesso a saberes mais complexos que não estão próximos da população. Por meio da Linguística Textual, buscamos investigar como a Defensoria construía esses sentidos e democratizava o acesso aos seus serviços e ao conhecimento dos direitos do cidadão. Pensamos nesse perfil por ser uma instituição local, do Maranhão”.

Resultados práticos e impacto social 

Na prática, a análise identificou como esses cruzamentos culturais podem gerar ações concretas de comunicação. Um dos exemplos destacados no estudo foi uma postagem da Defensoria Pública sobre o direito à herança, que utilizou o bordão “As joias de titia”. O meme surgiu da fusão de elementos de duas novelas escritas por Walcyr Carrasco: Alma Gêmea e Êta Mundo Bom!. Em ambas, as vilãs foram interpretadas pela atriz Flávia Alessandra.

Nas redes sociais, o público passou a misturar a frase “Eu quero as minhas joias”, dita por Cristina em Alma Gêmea, com a ambição de Sandra em Êta Mundo Bom!, que desejava se apropriar da herança da tia. Dessa combinação nasceu o meme “Eu hei de herdar as jóias de titia”, amplamente difundido na internet. A partir dessa referência compartilhada pelo público, a Defensoria Pública construiu uma publicação para explicar quem possui direito legítimo à herança e como funcionam as regras de sucessão previstas na legislação brasileira.

De acordo com a investigação do pesquisador, mais do que engajamento digital, essa estratégia mostrou força e efetividade na busca pelos serviços da instituição, como ocorreu no caso das orientações sobre pensão alimentícia. “Eles publicaram uma orientação baseada em uma cena da novela Vale Tudo exibida na noite anterior. Naquela mesma semana, a procura por atendimento sobre pensão alimentícia na Defensoria saltou mais de 60%”, revela Ozéias. “Isso prova o alcance social da iniciativa. Mulheres que tinham esse direito, mas não sabiam como agir, buscaram o órgão porque finalmente compreenderam o processo". 

O pesquisador também identificou uma divisão no formato das publicações para atingir públicos diferentes: enquanto as imagens dos cards usavam a estética jovem e memes rápidos, as legendas traziam um passo a passo detalhado e formal para orientar quem precisava de assistência jurídica.

A Ciência da Linguagem e a Tecnotextualidade

A professora Maria da Graça destaca que as análises feitas no ambiente virtual ajudam a compreender como a própria estrutura do texto mudou. Ela introduz o conceito de tecnotextualidade para definir esse conteúdo que já nasce integrado à tecnologia.“O texto na internet não se limita às palavras. Elementos como hashtags, arrobas, emojis, o número de curtidas e o volume de seguidores fazem parte da construção do sentido atual”, explica a orientadora.

A orientadora destaca que o prêmio reflete o empenho da UFMA em incentivar projetos de pesquisa e extensão que vão muito além da grade curricular tradicional. “O Ozéias já vem acumulando conquistas; esse não é o primeiro prêmio que ele ganha. Isso é algo que devemos agradecer muito à Universidade por proporcionar, porque os projetos de pesquisa e de extensão são fundamentais. A carga horária regular das disciplinas, sozinha, não basta para formar ninguém. Se o estudante não dedicar tempo à pesquisa e à extensão, a formação fica incompleta. Esse empenho institucional é o grande diferencial da UFMA.” destaca. 

Próximos passos na Pesquisa

Agora no mestrado, Ozéias expandiu o foco da investigação para as redes sociais do Ministério da Saúde. O objetivo é analisar como o órgão utiliza elementos da cultura digital e ferramentas interativas para reforçar campanhas de vacinação e combater a desinformação. "A pesquisa mostrou que esse fenômeno não é algo específico da Defensoria Pública. No mestrado, estamos ampliando essa investigação para outras instituições, como o Ministério da Saúde, e também para áreas como a economia. Já percebemos que se trata de uma estratégia de comunicação mais ampla, utilizada por diferentes organizações para tornar informações complexas mais acessíveis à população. A Defensoria, por exemplo, atende a um público que muitas vezes enfrenta dificuldades para compreender a linguagem jurídica, então simplificar e explicar melhor essas informações se torna fundamental. Nossa expectativa é compreender, de forma mais geral, como essas estratégias linguísticas contribuem para aproximar as instituições das pessoas", ressalta. 

Ao transformar conceitos da Linguística Textual em ferramentas para compreender e aprimorar a comunicação pública, a pesquisa demonstra como o conhecimento produzido na UFMA ultrapassa os limites da sala de aula e contribui diretamente para a sociedade. O reconhecimento conquistado em premiações reforça a relevância da pesquisa desenvolvida na instituição e evidencia o papel da Universidade na formação de pesquisadores comprometidos com os desafios contemporâneos.

Por: Byanca Santos 

Fotos: acervo pessoal

Revisão: Jáder Cavalcante

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