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Nanossatélites produzidos pela UFMA consolidam instituição como referência no setor aeroespacial brasileiro com lançamento do foguete HANBIT-Nano
Dois nanossatélites foram produzidos pela UFMA: Jussara-K e Pion BR2-Cientistas de Alcântara
Transportando dois nanossatélites desenvolvidos na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o foguete HANBIT-Nano foi lançado na noite dessa segunda-feira, 22, às 22h13, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Após decolar da plataforma, o veículo iniciou a subida vertical conforme planejado. No entanto uma falha técnica provocou a queda da estrutura, que colidiu com o solo, segundo informações da Força Aérea Brasileira (FAB).
O foguete sul-coreano marcava o primeiro voo comercial de um veículo espacial lançado a partir do território brasileiro. A bordo estavam oito nanossatélites, sendo dois produzidos na UFMA — Jussara K e Pion BR2 – Cientistas de Alcântara — como parte da Operação Spaceward.

Lançamento do foguete HANBIT-Nano no Centro de Lançamento de Alcântara. Foto: reprodução Innospace
Embora o foguete não tenha alcançado a órbita, o projeto marca um avanço significativo para o Programa Espacial Brasileiro, sobretudo para a UFMA.
Para o professor do Programa de Pós-graduação em Engenharia Aeroespacial (PPGAERO) e vice-coordenador do Pion BR2 - Cientistas de Alcântara, Alex Barradas, a operação foi importante por fortalecer o desenvolvimento tecnológico e a integração público-privada, reafirmando a posição estratégica de Alcântara para futuros lançamentos. “A operação deve ser analisada para além do seu desfecho imediato. Em programas mais avançados, o que aconteceu ontem não é o ponto final, mas uma etapa do processo de desenvolvimento tecnológico e institucional. Do ponto de vista estratégico, essa ação representou um esforço concreto de integração entre os atores públicos e privados. Mesmo sem um resultado direto e o esperado, a operação gerou o que é um ambiente de proliferação para mais ciclos, para mais lançamentos, pois mostrou que o CLA está preparado em termos de infraestrutura e de logística para realizar outras ações desse mesmo tipo”, explica.
O professor do curso de Engenharia Aeroespacial da UFMA e coordenador do nanossatélite Jussara-K, Carlos Brito, complementa que a Operação Spaceward provou que o Brasil tem capacidade técnica para realizar lançamentos orbitais a partir de Alcântara. “A Operação Spaceward pode ser considerada um marco histórico para o nosso país, uma vez que foi demonstrado para todo mundo que é possível realizar o lançamento de um foguete orbital. No nosso centro de lançamentos de Alcântara, todas as etapas foram cumpridas de forma perfeita, toda a operação decorreu de forma muito eficiente, ou seja, até mesmo quando foi necessário fazer a terminação do voo do foguete da Innospace, demonstrou-se ali total capacidade que o Centro de Lançamento de Alcântara tem hoje para justamente desenvolver lançamentos com total segurança”, afirma.
Participar do projeto coloca a UFMA e o Estado do Maranhão como destaques na área aeroespacial.
De oito cargas, dois nanossatélites foram produzidos na UFMA
O HANBIT-Nano transportava oito cargas, das quais cinco eram satélites e três eram experimentos. Entre os satélites, dois foram desenvolvidos na UFMA.
Jussara-K
O Jussara-K é um CubeSat desenvolvido no Laboratório de Eletrônica e Sistemas Embarcados Espaciais (LABESEE) da UFMA e reúne diversas tecnologias nacionais. Entre elas estão as antenas produzidas em parceria com o Laboratório LISE, da Universidade Federal de São João Del-Rei (MG), e o sistema de energia, incluindo os painéis solares, fabricados no próprio laboratório da UFMA.
Sua missão principal é coletar dados ambientais de plataformas terrestres equipadas com sensores em áreas de lagoas, florestas e regiões de cultivo. O satélite será capaz de captar informações como temperatura, umidade e níveis de monóxido de carbono, que é útil para identificar focos de queimadas.
Além disso, o Jussara-K estava programado para levar um módulo de processamento de inteligência artificial, fruto de parceria com a startup paulista Epic of Sun, para testar o desempenho da tecnologia em ambiente espacial.

Equipe do LABESEE no Centro de Lançamento de Alcântara. Foto: Innospace
O projeto do Jussara-K envolveu estudantes de graduação desde os primeiros semestres do curso, fortalecendo a integração entre ensino, pesquisa e inovação.
Pion BR2 - Cientistas de Alcântara
Já o Pion BR2 - Cientistas de Alcântara é fruto de uma parceria entre a UFMA, por meio do DARTi Lab e do BAITES, com a Agência Espacial Brasileira (AEB), a Fundação Sousândrade, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a startup brasileira PION, especializada em nanossatélites. O satélite nasceu do projeto “Cientistas de Alcântara”, que tem o objetivo de aproximar as comunidades da cidade de Alcântara, no Maranhão, das tecnologias espaciais, com foco no protagonismo das crianças quilombolas.
O satélite estava programado para levar ao espaço mensagens produzidas por cerca de trezentas crianças participantes do projeto. Após o lançamento, o PION-BR2 - Cientistas de Alcântara enviará sinais que poderão ser captados por estações de telemetria em diversas partes do mundo.
Além da missão educacional, o satélite também seria utilizado para testes e validações tecnológicas, incluindo o gerenciamento de energia e desempenho dos painéis solares, testes e qualificação do módulo de comunicação e antena, testes e qualificação do computador de voo.

PION BR2 - Cientistas de Alcântara
A produção dos nanossatélites fortalece e posiciona a UFMA como uma das poucas universidades a fazer parte de lançamentos como este.
“A operação SpaceWard foi bem importante para nós, pesquisadores da UFMA, uma vez que foi possível participar de todo o ciclo espacial, desde a construção de um satélite até a integração desse satélite em um foguete orbital. A UFMA tem se consolidado no setor, uma vez que ela se apresenta por meio dessas pesquisas, desses projetos relacionados à construção de satélites e também de foguetes. Nós estamos desenvolvendo outras coisas aqui também, que vão ser muito interessantes para o futuro. E, por isso mesmo, a UFMA está cada vez mais integrada aos propósitos do Centro de Lançamentos de Alcântara, assim como o Programa Espacial Brasileiro, pretendem para as próximas décadas aqui no Brasil”, frisa o professor Carlos Brito.
Além disso, a Universidade cumpre seu tripé de ensino, pesquisa e extensão. Além de participar de forma técnica e estratégica, a instituição promove integração social ao inserir nesses projetos trezentas crianças que participam do Cientistas de Alcântara.

Projeto "Cientistas de Alcântara". Foto: DARTI Lab
Para o professor Alex Barradas, a UFMA tem um papel importante no fortalecimento do setor aeroespacial ao contribuir tecnicamente, formar pessoas e envolver comunidades, impulsionando o desenvolvimento espacial regional e nacional. “A UFMA mostrou que nossa produção atual pode ser muito significativa e pode contribuir para o setor aeroespacial, não apenas tecnicamente, mas em diferentes aspectos, como na capacitação e ações de extensão em comunidades mais afastadas. Isso tudo é essencial para que você crie um ciclo de proliferação para o cenário espacial, não só do Maranhão, como também do país”, ressalta.
O professor salienta, ainda, que o saldo deste grande projeto é positivo. “Vejo como um sucesso. Um sucesso de poder demonstrar a competência do CLA e da AEB e de todas as instituições envolvidas no processo de infraestrutura e de logística para lançamentos orbitais, o que de fato aconteceu, e também uma cultura em que possamos fazer mais ações que coloquem artefatos inseridos dentro do foguete para diferentes tipos de finalidade. Essa é a questão: conseguirmos manter esse ciclo e essa constância de atividade no setor espacial. E esses satélites, tanto o Pion BR2 - Cientistas de Alcântara como o Jussara-K, são os frutos iniciais dessa política, desse processo que deve ser contínuo”, finaliza.
UFMA é referência na produção de nanossatélites
Outro nanossatélite desenvolvido pela instituição é o Aldebaran I, com lançamento previsto para janeiro de 2026 no foguete PSLV, a partir do Centro Espacial da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), na Índia.
Desenvolvido por professores e alunos do curso de Engenharia Aeroespacial, com financiamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) e da Fundação Sousândrade (FSADU), o nanossatélite tem por objetivo aprimorar a segurança de embarcações do município de Raposa e monitorar focos de queimadas na região de Alcântara.
Por: Sarah Dantas
Fotos: Darti Lab, DCom e Innospace
Revisão: Jáder Cavalcante