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Do laboratório ao mercado: pesquisa da UFMA transforma castanha do Maranhão em produtos inovadores e impulsiona bioeconomia
Bombom do Maranhão
Reconhecida mundialmente por sua riqueza de espécies e potencial econômico sustentável, a biodiversidade da Amazônia tem sido objeto de pesquisas científicas e iniciativas inovadoras no Brasil. No Maranhão, especialmente na região da Amazônia Legal, essa diversidade natural vem sendo cada vez mais explorada sob a perspectiva da bioeconomia, integrando conhecimento acadêmico, valorização de recursos locais e dos saberes tradicionais e geração de renda.
Foi nesse contexto que a pesquisadora e docente do curso de Engenharia de Alimentos, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Câmpus Imperatriz, Daniela Souza Ferreira, iniciou uma pesquisa voltada ao aproveitamento da castanha do Maranhão. Conhecida como cacau-selvagem, monguba ou mamorana, a espécie é nativa da região da Amazônia Maranhense com grande potencial nutricional e tecnológico porém ainda pouco explorada.
Sob a coordenação de Daniela, o projeto “Bombom do Maranhão: Nova Cultura da Bioeconomia” nasceu com o objetivo de desenvolver um chocolate a partir da castanha do Maranhão, inicialmente concebido no âmbito acadêmico, o projeto ganhou força após aprovação em editais de fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), o que possibilitou sua evolução para uma iniciativa empreendedora.
A partir desse avanço, foi criada a startup Maranuts, responsável por transformar os resultados da pesquisa em produtos voltados ao mercado. Atualmente, a empresa está incubada na UFMA, consolidando a conexão entre ciência, inovação e empreendedorismo dentro da instituição.

Infográfico: Coordenação de Comunicação Visual e Design Gráfico
Potencial de um recurso ainda inexplorado
A pesquisa teve início em 2022, quando Daniela chegou ao Maranhão e passou a investigar produtos nativos com potencial para desenvolvimento científico e tecnológico. Durante esse processo, identificou a ausência de uma cadeia produtiva estruturada para a castanha do Maranhão, apesar de sua ampla ocorrência no estado.
“Eu mudei para o Maranhão em 2022 e comecei a pesquisar quais eram produtos nativos para fazer os trabalhos, para desenvolver as pesquisas, visando a editais de fomento. E eu comecei a pesquisar que não tinha produtos alimentícios com essa castanha do Maranhão. Ela não tem cadeia produtiva, são árvores de forma aleatória, não tem uma plantação de castanha aqui no estado. Ela se espalha de uma forma muito fácil, tem um bom desenvolvimento. Aí, eu comecei a ver a potencialidade. Nós levamos para o laboratório e começamos os primeiros testes”, conta a pesquisadora.
Os primeiros testes laboratoriais revelaram características promissoras: a castanha é rica em gorduras com propriedades semelhantes às da manteiga de cacau, o que motivou a proposta de produção de chocolate a partir desse insumo. A carência de estudos na literatura científica também reforçou o caráter inovador da pesquisa.
Além da viabilidade tecnológica, a castanha do Maranhão apresenta importantes benefícios nutricionais. “Ela tem a parte nutricional, compostos antioxidantes. Ela tem uma riqueza de gorduras, gorduras boas. Assim como outras oleaginosas, assim como outras castanhas. Ela tem uma gordura específica, um ácido graxo específico que tem propriedades melhores do que outras oleaginosas. Previne envelhecimento mental, algumas características nesse sentido. Porque a gente sabe que gordura boa é bom para o funcionamento dos neurônios”, enumera Daniela.

Fruto da castanha do Maranhão. Foto: acervo
Essas características colocam a castanha em posição de destaque entre as oleaginosas, ampliando seu potencial de aplicação em produtos saudáveis. Alternativas que demonstram a versatilidade da matéria-prima e abrem caminho para o desenvolvimento de novos produtos no futuro.
Segundo a pesquisadora, as pesquisas caminham em uma perspectiva de fomentar uma cadeia produtiva da castanha do Maranhão. “Abre-se uma nova cultura, um novo produto. Não só chocolate, daí podem surgir outros produtos sendo fabricados com ela. Isso criando geração de renda para as famílias”.
Para além do chocolate, estão sendo desenvolvidos diferentes produtos, com foco em alimentação saudável e sem adição de açúcar, como uma pasta de castanha, semelhante a cremes de avelã, com versões que incluem cacau e outras combinações e “bowl” de castanha, um produto similar a cereais matinais, que pode ser consumido com leite, café, açaí ou como snack.
O “Bombom do Maranhão” já passou por etapas de validação, incluindo testes sensoriais e comercialização em feiras locais, especialmente na cidade de Imperatriz. Atualmente, a startup Maranuts está em fase de aceleração, com foco na profissionalização das embalagens e na inserção dos produtos em pontos de venda, como lojas de produtos naturais, empórios e drogarias.
Bioeconomia e geração de renda no Maranhão
De acordo com a pesquisadora, o aproveitamento da castanha do Maranhão contribui para a valorização da biodiversidade maranhense além de estimular a bioeconomia regional. “Promove um desenvolvimento de bioeconomia. Desde o plantio: famílias que começam a plantar, observar ali que pode gerar renda. [...] Porque o nosso estado tem muita matéria-prima. Então, está na hora de ter produto final. Embalado para vender com a marca. Com o nome do Maranhão”, pontua Daniela.
Esse é um dos principais impactos do projeto. A iniciativa estimula o cultivo da castanha por famílias e pequenos produtores; a geração de renda em diferentes etapas da cadeia; a valorização de matérias-primas locais e a criação de produtos com identidade maranhense e maior valor agregado. Além disso, o projeto movimenta outros setores, como design de embalagens, produção gráfica e serviços locais, fortalecendo a economia regional.
A iniciativa já conta com parcerias importantes para ampliar sua atuação. Entre elas, destaca-se a colaboração com a Associação Frei Tadeu, com a qual foi implantado um viveiro de mudas da castanha do Maranhão. Além disso, há articulações em andamento com empresas como a Suzano, visando fortalecer ações com foco ambiental e social, bem como a ampliação da produção junto a comunidades e pequenos produtores.
Também foi estabelecida uma área experimental no câmpus da UFMA em Imperatriz, com cerca de 50 árvores plantadas, cujo desenvolvimento vem sendo monitorado há aproximadamente um ano e meio.
Reconhecimento e incentivo ao empreendedorismo
Transformar uma matéria-prima pouco explorada em produtos inovadores, fortalecer a bioeconomia, estimular o empreendedorismo e criar novas oportunidades de renda no estado foram aspectos que trouxeram para o projeto “Bombom do Maranhão: Nova Cultura da Bioeconomia” o reconhecimento e a premiação com o segundo lugar no Prêmio Fapema 2025, na inédita categoria de empreendedorismo. A premiação destacou a importância de iniciativas que ultrapassam os limites do laboratório e chegam ao mercado.
Para a professora, o reconhecimento reforça a necessidade de incentivar estudantes e pesquisadores a desenvolverem uma visão empreendedora, integrando ciência e aplicação prática. Segundo ela, muitos projetos científicos permanecem restritos ao ambiente acadêmico, sem alcançar seu potencial de impacto social e econômico.
“O prêmio é um incentivo. É um mérito. Fiquei bem feliz e honrada. Foi o próprio governador que entregou o prêmio. [...] Deu até para explicar do projeto. Então, isso é um incentivo. Mostrando que estou no caminho certo. Para continuar com essa pesquisa. Continuar na formação de pessoas. Com esse olhar de empreendedorismo”, expressou a docente.

Daniela Souza Ferreira recebe o Prêmio Fapema das mãos do governador do Maranhão, Carlos Brandão. Foto: acervo
O projeto “Bombom do Maranhão”, que deu origem à startup Maranuts, exemplifica como a pesquisa acadêmica pode gerar impactos reais na sociedade. Com o apoio de editais de fomento, parcerias estratégicas e o envolvimento da comunidade acadêmica, a proposta segue em expansão, firmando-se como um modelo de integração entre ciência, mercado e desenvolvimento regional.
A trajetória do projeto também evidencia o papel da universidade como agente de transformação social, integrando pesquisa científica, inovação e empreendedorismo, contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, valorizando recursos naturais e promovendo inclusão produtiva.
E para os jovens pesquisadores, Daniela deixa uma mensagem:
“Primeiro, pensar em produtos realmente regionais, que valorizem a cultura do estado, as comunidades e os pequenos produtores. Quando a gente procura, os saberes regionais têm muito a acrescentar. A gente tem que conversar com as pessoas. Tem que ir ao campo. Tem que conversar com a comunidade. Ir ao local. Não ficar só dentro de um laboratório. E o próximo passo é arriscar. A gente sempre tem alguma coisa nova e fica com receio. ‘Será que isso vai dar certo?’ ‘Será que as pessoas vão se interessar por aquilo?’. Precisa arriscar”.
Por: Ingrid Trindade
Fotos: Divulgação
Revisão: Jáder Cavalcante