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Dia Internacional da Mulher: pesquisas lideradas por docentes e discentes da UFMA contribuem e têm impacto positivo na sociedade
O debate sobre a presença feminina nos espaços de poder e de produção do conhecimento tem se tornado cada vez mais necessário. Celebrado em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher reforça a importância da reflexão sobre o papel das mulheres como protagonistas no avanço de diferentes áreas da sociedade. A data, reconhecida oficialmente pela Organização das Nações Unidas na década de 1970, é resultado de uma trajetória histórica de mobilização e reivindicação por igualdade de direitos.
Se, por um lado, as mulheres ampliaram sua presença nas universidades e hoje são maioria no ensino superior brasileiro, por outro, ainda enfrentam desafios para consolidar sua participação em cargos de liderança científica e em espaços estratégicos de decisão acadêmica, onde a representatividade feminina segue sendo um ponto de atenção.
Nesse cenário, as universidades desempenham um papel social importante ao impulsionar a participação feminina em espaços relevantes e ampliar o debate de gênero no país. A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) tem se destacado como uma instituição em que pesquisadoras lideram investigações estratégicas em áreas como saúde, inovação e desenvolvimento social, voltadas à transformação da realidade maranhense.
Essa presença feminina na instituição também aparece em números. Ao todo, a UFMA conta com mais de mil professoras. As discentes também são a maioria. Na graduação, são 17.066 alunas matriculadas. Já na pós-graduação, considerando cursos lato e stricto sensu, 4.937 mulheres estão em formação acadêmica. Desse total, 2.118 participam do mestrado e 612 do doutorado.
O protagonismo feminino também se reflete na condução das pesquisas desenvolvidas na universidade. Dos 1.095 projetos de pesquisa atualmente em execução na UFMA, mais de 50% são coordenados por mulheres. Nas iniciativas voltadas à inovação, o cenário é semelhante: dos 92 projetos em andamento, 48 têm liderança feminina.
Na iniciação científica e tecnológica, a participação das mulheres também se destaca. Somando os programas PIBIC e PIBITI, são 1.256 planos de trabalho, dos quais 752 são desenvolvidos por alunas. Já no PIBIC Ensino Médio, dos 77 planos existentes, 50% contam com a participação feminina.
A UFMA tem se consolidado como um ambiente de acesso, permanência e qualificação feminina no ensino superior, resultado de investimentos voltados à ampliação de oportunidades para que mais mulheres avancem em seus trabalhos.
Pesquisa com impacto Internacional
A UFMA conta com diversas personalidades inspiradoras que demonstram a excepcionalidade do trabalho coordenado pelas mulheres, que lideram pesquisas estratégicas voltadas ao desenvolvimento social do Maranhão. A docente Cecília Cláudia Costa Ribeiro é referência na área da saúde e na produção científica da Universidade. Professora titular da instituição desde 2020, destaca-se internacionalmente por suas pesquisas em Odontopediatria e Saúde Coletiva.
A trajetória da pesquisadora é marcada pelo pioneirismo na Odontologia Minimamente Invasiva e por estudos que investigam a relação entre o consumo de açúcares e doenças crônicas, como a periodontite e a cárie. Os resultados dessas pesquisas contribuíram para orientar recomendações de saúde pública adotadas por instituições como a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde.
“Para uma pesquisadora da área da saúde, ter um trabalho citado nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde é uma grande honra e um importante reconhecimento internacional. Nesse trabalho, demonstramos que o consumo de açúcares está associado à maior destruição dos tecidos de suporte e sustentação dos dentes — condição conhecida como periodontite — algo que ainda não estava descrito de forma clara na literatura científica”, explicou Cecília Ribeiro.

Professora e pesquisadora da UFMA Cecília Cláudia Costa Ribeiro.
Ela ainda destacou a qualidade da ciência produzida no estado. “Ver esse conhecimento sendo utilizado para orientar políticas e recomendações internacionais é a confirmação de que a ciência feita aqui no Maranhão pode alcançar os grandes debates globais em saúde”.
Com mais de 150 artigos científicos publicados, Cecília também desenvolve estudos sobre os chamados “primeiros mil dias de vida”, período que compreende a gestação e os dois primeiros anos da criança e é considerado fundamental para o desenvolvimento infantil. A pesquisadora ainda lidera projetos que utilizam tecnologias de inteligência artificial aplicadas à Atenção Primária em Saúde.
Entre os estudos conduzidos nessa linha, destacam-se investigações sobre as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) nesse período inicial da vida. Os resultados apontaram que a cárie, a doença crônica mais prevalente no mundo, está associada a outras DCNT na infância, como asma, alergias e obesidade.
Com o uso de algoritmos de machine learning, foram identificados os dez principais fatores de risco para essas condições, o que levou ao desenvolvimento de uma calculadora de risco para identificação precoce. Além disso, foi criada a assistente virtual MarIA, baseada em modelo de linguagem, para apoiar profissionais da Atenção Primária e ampliar estratégias de prevenção desde a gestação e início da vida.
Por esse e tantos outros trabalhos, Cecília Ribeiro recebeu grandes reconhecimentos e premiações. Entre eles, o prêmio Pesquisador Destaque nos 20 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e o prêmio de Pesquisadora Sênior da América Latina, concedido pela International Association for Dental, Oral, and Craniofacial Research, em 2023. Ela também é a única maranhense a integrar a Academia Brasileira de Odontologia, uma honraria concedida a profissionais com contribuição relevante para o avanço científico da área no país.
Para Cecília, um dos aspectos mais marcantes de sua carreira é testemunhar a formação de novas pesquisadoras que hoje atuam em diferentes espaços da ciência e da saúde.“O que mais me emociona é olhar para trás e ver a formação de tantas mulheres, mestras e doutoras que hoje estão atuando na universidade, no SUS e em centros de pesquisa, evidenciando a força das mulheres na ciência. Como mulher, mãe e pesquisadora, construir essa trajetória mostrando que é possível fazer ciência de impacto a partir do Maranhão é, para mim, uma das maiores conquistas”.
Nutrição no cuidado com crianças vivendo com HIV
Outra pesquisa que ilustra o impacto social da produção científica produzida por mulheres da UFMA vem da área da nutrição e da saúde infantil. No Programa de Pós-Graduação em Saúde e Tecnologia do Câmpus Imperatriz, a pesquisadora Andressa Silva Costa desenvolveu um trabalho que investigou o uso da farinha de castanha de caju como suplemento alimentar para crianças que vivem com HIV. O estudo foi realizado durante o seu mestrado, sob orientação da professora Ana Cristina Pereira de Jesus Costa, e avaliou os efeitos da suplementação com farinha de castanha de caju (Anacardium occidentale L.) em aspectos sociais, clínicos e nutricionais de crianças que convivem com o vírus.
A proposta surgiu baseada em pesquisas anteriores conduzidas pela orientadora, que já investigavam o uso desse insumo no tratamento de crianças com desnutrição. Com base nesses resultados, surgiu a ideia de ampliar o estudo para crianças vivendo com HIV, grupo que frequentemente enfrenta desafios relacionados ao estado nutricional e à imunidade.
A experiência de desenvolver a pesquisa também foi marcada pela convivência e troca com outras mulheres. Para Andressa, o interesse pela área surgiu ainda durante a formação acadêmica, inspirado por professoras que já atuavam na pesquisa e que despertaram sua curiosidade científica.

“Sempre tive boas inspirações de professoras que já atuavam na pesquisa. E sempre me identifiquei com a área, pela curiosidade que ela desperta, foi uma experiência maravilhosa em que sempre trabalhei mais com mulheres, de diferentes formações, adquirindo vivências diferentes e enriquecedoras”.
Pesquidora da UFMA desenvolve farinha de castanha-de-caju, que pode auxiliar crianças com HIV.
Os resultados da investigação apontaram para uma realidade marcada por vulnerabilidade social e insegurança alimentar entre parte das crianças acompanhadas. Ao mesmo tempo, a pesquisa indicou que a suplementação com a farinha de castanha de caju trouxe efeitos positivos em parâmetros clínicos e nutricionais, contribuindo para a melhora do estado nutricional e para o fortalecimento do sistema imunológico dos participantes. Além disso, a proposta se apresentou como uma solução alimentar que se adapta à disponibilidade de insumos disponíveis do estado, contribuindo também para a produção local.
“Por uma questão de sustentabilidade e valorização da regionalidade, pode impulsionar o comércio local, além de explorar, de modo consciente e inteligente, o potencial nutritivo desses alimentos”, destacou Andressa.
A orientadora da pesquisa e professora da UFMA, Ana Cristina Pereira, ressalta que a UFMA tem papel importante na criação de soluções para problemas do território e destaca que as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço, visibilidade e liderança na pesquisa, especialmente na área da saúde. “A UFMA tem grande responsabilidade na produção de soluções inovadoras, a partir da integração do ensino, da pesquisa e extensão, e formação de profissionais numa tentativa de resolver problemas de saúde, sociais e ambientais, específicos do território. A presença da mulher nessas áreas tem evoluído nos últimos anos. Na área da saúde, as mulheres estão ganhando visibilidade e autonomia para coordenar projetos e liderar produções científicas de alto impacto.”
Mesmo com os avanços registrados nas últimas décadas, Ana Cristina Pereira aponta que a presença feminina na ciência ainda enfrenta desafios estruturais. “Na área tecnológica, também há diversos desafios para aumentar a participação feminina. É possível constatar que a presença de mulheres na área tecnológica ainda gera insegurança, sobretudo em homens, e isso interfere diretamente na presença e no avanço das mulheres nessa área”, pontuou.
Liderança feminina na ciência
A UFMA se destaca como uma instituição comprometida em promover e contribuir para o avanço das mulheres na ciência, educação, inovação e no empreendedorismo. Por meio de iniciativas inclusivas e políticas de igualdade de gênero, a Universidade tem trabalhado ativamente para criar um ambiente acadêmico que reconheça e valorize cada vez mais as contribuições das mulheres cientistas.
A pró-reitora da Agência de Inovação, Empreendedorismo, Pesquisa, Pós-Graduação e Internacionalização da UFMA, Flávia Nascimento, salienta que o crescimento da participação e liderança das mulheres na ciência fortalece a inovação, forma novas gerações e contribui para uma sociedade mais justa e desenvolvida. “A liderança das mulheres na ciência cresce e transforma realidades no Brasil e no mundo. Na UFMA, pesquisadoras protagonizam descobertas, coordenam projetos e formam novas gerações de cientistas. Valorizar as mulheres na ciência é fortalecer a competência, a criatividade, a sabedoria, o conhecimento, a inovação, o acolhimento e o desenvolvimento da nossa sociedade com mais equidade e respeito. Cada vez mais conquistamos espaço e comprovamos que nós, mulheres, podemos alcançar o que quisermos, com altivez, seriedade e força”
As trajetórias de pesquisadoras como Cecília Cláudia Costa Ribeiro de Almeida, Andressa Silva Costa e Ana Cristina Pereira evidenciam como a inserção feminina na universidade contribui para ampliar o alcance social da ciência. Em diferentes áreas do conhecimento, suas pesquisas demonstram que a produção científica realizada por mulheres dialoga diretamente com desafios concretos da sociedade, seja no desenvolvimento de tecnologias voltadas à saúde pública ou na busca por soluções nutricionais que valorizem recursos regionais.
Mais do que celebrar conquistas, o Dia Internacional da Mulher também convida à reflexão sobre os caminhos que ainda precisam ser percorridos. No ambiente universitário, prestar apoio às mulheres também significa ampliar perspectivas, produzir conhecimento mais diverso e contribuir para uma sociedade mais igualitária, prática reforçada e valorizada dentro da Universidade Federal do Maranhão.
Por: Giovanna Carvalho
Produção: Sarah Dantas
Revisão: Jáder Cavalcante