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Da floresta ao laboratório: pesquisa da UFMA usa própolis amazônica no combate a doenças endêmicas e multirresistentes

publicado: 30/09/2026 16h15, última modificação: 30/09/2026 16h19
Estudo desenvolvido no Câmpus Imperatriz combina biodiversidade, nanotecnologia e biotecnologia para criar alternativas de tratamento e produtos de uso tópico
Da floresta ao laboratório: pesquisa da UFMA usa própolis amazônica no combate a doenças endêmicas e multirresistentes

Abelhas na produção da própolis a partir de resina e seivas. Foto: Rede Fito Amazônica

Um estudo desenvolvido pela Rede Fito Amazônica, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), investiga o potencial da própolis vermelha amazônica contra bactérias multirresistentes a antibióticos e o protozoário causador da leishmaniose. A pesquisa, desenvovida pelo professor de Química do Câmpus Imperatriz Richard Dutra, no Laboratório de Química de Produtos Naturais (LQPN), busca identificar compostos presentes na biodiversidade amazônica que possam contribuir para o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas.

A investigação integra a perspectiva de estudos desenvolvidos no âmbito da Rede Fito Amazônica, voltada à pesquisa e ao aproveitamento do potencial da biodiversidade da região. É nesse contexto que a própolis, coletada em uma propriedade rural em Esperantina (TO), vem sendo analisada por pesquisadores. Nos testes in vitro, o produto já apresentou resultados promissores, e a equipe busca compreender quais mecanismos estão relacionados aos efeitos observados contra os microrganismos.

Origem da Própolis 

A própolis é uma substância produzida por abelhas a partir de resinas, seivas e outras substâncias coletadas de plantas. O material é utilizado por elas para proteger e manter a colmeia, formando uma espécie de barreira contra microrganismos. Por apresentar diferentes compostos em sua composição, a própolis também é estudada por seu potencial de ação contra bactérias e outros agentes causadores de doenças.

É justamente essa característica que levou a própolis vermelha amazônica a se tornar objeto central da pesquisa desenvolvida na UFMA. Para investigar seu potencial, os pesquisadores realizaram testes em laboratório e também estudaram sua aplicação na produção de nanopartículas de prata por meio de tecnologia verde. As análises permitem observar a resposta das bactérias e do protozoário diante dos compostos presentes no produto, além de avaliar quais concentrações apresentam resultados mais significativos. A partir desses dados, a equipe busca identificar os componentes relacionados aos efeitos observados e compreender como eles atuam contra as bactérias multirresistentes e o protozoário responsável pela leishmaniose.

O que é Leishmaniose?

É uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Leishmania e transmitida pela picada de insetos conhecidos como flebotomíneos.  Ela pode se apresentar de diferentes formas, sendo as mais comuns a leishmaniose cutânea, que provoca lesões na pele, e a visceral, que pode afetar órgãos como fígado e baço e levar a quadros graves.

No Brasil, a doença é considerada um problema de saúde pública, especialmente em regiões onde há circulação do parasita e presença do inseto transmissor. É nesse contexto que a pesquisa desenvolvida na UFMA busca avaliar uma possível alternativa de origem natural para combater o protozoário causador da doença.

Expansão da descoberta e primeiros ensaios

Segundo o professor Richard Dutra, após a descoberta inicial no Tocantins, foi constatado que a própolis vermelha se expandia a outras regiões da Amazônia.

“Venho trabalhando desde 2018 com a própolis vermelha amazônica. Ela foi descoberta por nosso grupo, inicialmente, no município de Esperantina, no estado do Tocantins. Mas, depois encontramos também a presença dessa mesma própolis no estado do Pará”, aponta. 

Ele ainda ressalta que com o material coletado o foco inicial dos testes foi direcionado a enfermidades que tinham impacto regional, aproveitando a experiência prévia proporcionada no laboratório. “As atividades biológicas iniciais, que testamos para a própolis vermelha, foi a leishmanicida,  considerando que é um dos ensaios que o grupo de pesquisa em Imperatriz já tem experiência. O nosso modelo foi com formas promastigotas e amastigotas deste protozoário e após resultados promissores dessa primeira parte do estudo, tanto química quanto biológica, foram realizadas análises utilizando bactérias e fungos, entre eles algumas cepas multirresistentes”, explica o professor.

Professor Richard Dutra e sua equipe de pesquisadores da própolis vermelha amazônica

Composição química e ação contra os microrganismos

Além dos testes para avaliar a ação da própolis, a equipe passou a investigar a composição química do material. As análises permitiram identificar as principais classes de compostos presentes na amostra coletada inicialmente no Tocantins e observar outros efeitos relacionados à atividade antimicrobiana.

Infográfico explicando o potencial de ação da própolis vermelha 

Outras aplicações em estudo

A pesquisa com a própolis vermelha amazônica também se expandiu para outras possibilidades de aplicação. Entre elas está o desenvolvimento de uma bebida fermentada do tipo kombucha, produzida com própolis e mel. Os primeiros estudos observaram atividade antimicrobiana e antioxidante, enquanto novas análises buscam definir as melhores condições para a produção da bebida.

Própolis vermelha sendo manipulada no Laboratório de Química de Produtos Naturais. Foto: Rede Fito Amazônica

Próximos passos

Para Richard, a continuidade dos estudos será fundamental para ampliar o conhecimento sobre a própolis vermelha amazônica e avaliar quais aplicações podem, de fato, avançar para etapas posteriores de desenvolvimento. “Temos vários estudos em andamento que vão permitir avaliar a qualidade dessa própolis vermelha amazônica visando a produtos que tenham eficácia, mas também que possam garantir a segurança das pessoas que consomem esse tipo de produto natural”, destaca.

Entre as próximas etapas estão a continuidade dos testes com as nanopartículas de prata, o aperfeiçoamento das formulações de uso tópico e a realização de novos estudos em modelos animais. Os resultados dessas etapas poderão indicar quais das aplicações investigadas apresentam condições para avançar em pesquisas futuras.

Dessa forma, o projeto não apenas reafirma a riqueza da biodiversidade amazônica, mas também posiciona a universidade na vanguarda da busca por soluções biotecnológicas para gargalos da saúde pública. A consolidação dessas pesquisas abre caminho para que recursos naturais da região se transformem em tratamentos inovadores, acessíveis e seguros, fortalecendo a ciência nacional e oferecendo novas perspectivas terapêuticas para a sociedade.

A Rede Fito Amazônica

É uma rede de pesquisa voltada ao estudo da biodiversidade amazônica e de seu potencial para a produção de novos produtos de interesse à saúde. No contexto da rede, os pesquisadores investigam espécies e substâncias encontradas na região, buscando conhecer suas propriedades e possíveis aplicações científicas e tecnológicas. Entre os produtos estudados estão o babaçu, buriti, guaraná, cupuaçu, bacuri, cacau, além de plantas medicinais como o mastruz, jabolão e gervão e, agora, a própolis vermelha amazônica.

A rede também conta com um Núcleo de Comunicação (NUCOM), responsável pela divulgação das pesquisas da rede. No mês de agosto, publicou sua primeira reportagem em formato longform, dedicada à pesquisa científica sobre a própolis vermelha amazônica e seu potencial para o desenvolvimento de novas alternativas no combate a bactérias resistentes aos antibióticos e à leishmaniose. Acesse aqui. 

Por: Judson Nunes

Fotos: Rede Fito Amazônica

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