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Da comunidade à universidade e de volta ao território: os 17 anos da Licenciatura em Educação do Campo na UFMA

publicado: 29/10/2026 14h09, última modificação: 29/10/2026 14h58
A trajetória do egresso Jessé Lima da Silva mostra como o conhecimento acadêmico pode fortalecer a memória, a educação e a organização social dos povos do campo
Da comunidade à universidade e de volta ao território: os 17 anos da Licenciatura em Educação do Campo na UFMA

Seminário “Vozes, Lutas e Memórias do Campo” marcará as celebrações dos 17 anos do curso Educação no Campo

Filho de camponeses, de assentado da reforma agrária e de quebradeira de coco babaçu, Jessé Lima da Silva cresceu em São Manoel, comunidade centenária localizada no município de Lago do Junco, no Médio Mearim maranhense. Foi nesse território que, desde cedo, aprendeu a reconhecer a força da ação coletiva e a importância da educação ligada à vida das comunidades.

Com uma jornada educacional iniciada nas Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), ao ingressar na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Jessé encontrou ferramentas para compreender, sistematizar e valorizar conhecimentos que já faziam parte de sua trajetória. Egresso da Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC), na área de Ciências Agrárias, Câmpus de Bacabal, ele seguiu os estudos até o mestrado em Educação do Campo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e, atualmente, é doutorando em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Atualmente, Jessé atua junto à União das Associações das Escolas Famílias Agrícolas do Maranhão (UAEFAMA), contribuindo para a formação de educadores e o fortalecimento das EFAs. Mantém, ainda, vínculos com organizações comunitárias e movimentos sociais, entre eles, a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MTR), cuja história acompanha desde a infância, por meio da participação de sua mãe na entidade.

A experiência de Jessé ajuda a compreender uma das contribuições centrais da Educação do Campo: possibilitar que a formação universitária não represente o afastamento das comunidades de origem, mas amplie as condições para que seus próprios sujeitos participem da construção do conhecimento e da transformação de seus territórios.

“A graduação não me ensinou a abandonar esses conhecimentos ou a trocar por ciência, mas considerar que tudo isso que eu trazia da comunidade também como conhecimento”, relata Jessé.

Uma universidade que reconhece os saberes do campo

Antes da graduação, Jessé vivenciou uma educação vinculada à realidade camponesa nas Escolas Famílias Agrícolas Antônio Fontenelle e CEFA Manoel Monteiro. Foi na pedagogia da alternância, que articula os processos educativos da escola e da comunidade, que começou a compreender o território como espaço de aprendizagem.

Na LEdoC, essa experiência ganhou novas referências teóricas e científicas. A formação permitiu que ele compreendesse as relações entre educação, desigualdades sociais, cultura e organização política, além de reconhecer que os conhecimentos construídos coletivamente nas comunidades também são formas legítimas de produção de saber.

A compreensão transformou a maneira como Jessé passou a olhar para a própria história. As lembranças compartilhadas pelos moradores mais antigos, as experiências das quebradeiras de coco e as narrativas sobre a luta pela terra deixaram de ser apenas memórias familiares e comunitárias e passaram a integrar um processo de investigação e valorização da história social do território.

Jessé trabalha na articulação de novas EFAs no Maranhão. Foto: acervo pessoal

Jessé defende que a Educação do Campo não se limita à existência de uma escola na zona rural. Trata-se de um projeto educativo que reconhece os sujeitos do campo, suas culturas, seus conhecimentos e suas formas de organização, garantindo-lhes participação na construção dos processos educativos.

Essa perspectiva também orienta seu trabalho de pesquisa. Jessé investiga a história do assentamento de São Manoel, com atenção à luta pela terra, ao acesso livre aos babaçuais e aos processos educativos que nasceram da organização comunitária. O trabalho resultou no livro “Babaçu, Terra e Memória de Comunidade: a História em Três Tempos de Luta”, publicado em 2024, e continua sendo aprofundado em sua pesquisa de doutorado. A obra reúne elementos da memória oral de trabalhadores e trabalhadoras rurais que participaram dessas lutas, contribuindo para registrar experiências que nem sempre encontram espaço nos registros oficiais da história do Maranhão.

“Estamos diante de conhecimentos que foram construídos ao longo de gerações, que foram essenciais para a manutenção e a existência de muitas comunidades”, afirma.

A intenção é contribuir para que histórias transmitidas principalmente pela oralidade sejam registradas, compartilhadas e incorporadas a atividades educativas, pesquisas e espaços de formação.

Conhecimento que retorna à comunidade

A relação entre universidade e território também se manifesta na atuação de Jessé junto às organizações sociais. A experiência com a MTR, iniciada ainda na infância e aprofundada a partir de 2012, acompanha sua trajetória acadêmica e profissional.

A associação reúne mulheres quebradeiras de coco babaçu que protagonizam lutas pela terra, pela preservação dos babaçuais e pela construção de alternativas de geração de renda. A produção de sabonetes à base de babaçu, atividade com a qual Jessé teve contato por meio do trabalho de sua mãe, tornou-se também objeto de seu interesse acadêmico.

Durante a graduação, seu trabalho de conclusão de curso abordou a articulação das mulheres em torno dessa produção. A pesquisa permitiu compreender que o trabalho com o babaçu não se resume à manipulação de fórmulas ou ao conhecimento químico. Envolve também autonomia econômica, preservação ambiental, ancestralidade e organização política.

Mais recentemente, Jessé contribuiu para a elaboração de uma publicação dedicada aos 37 anos da MTR, reunindo documentos, poemas, canções e memórias das mulheres que construíram a história da organização no Médio Mearim.

Para ele, registrar essas trajetórias é também uma forma de reconhecer o protagonismo das trabalhadoras rurais e preservar suas experiências para as novas gerações. A formação universitária ampliou suas ferramentas de pesquisa, escuta e sistematização, permitindo que esse trabalho fosse desenvolvido em diálogo com os conhecimentos construídos pelas próprias mulheres.

Essa atuação se estende às Escolas Famílias Agrícolas do Maranhão, onde contribui com a formação de educadores, projetos de agroecologia, práticas pedagógicas e iniciativas que aproximam escola, família, comunidade e movimentos sociais.

“Colocar essa formação universitária em prática significa uma ação política e histórica, que significa fazer com que o conhecimento produzido na universidade retorne às comunidades e contribua para as necessidades em seus projetos e em suas lutas, e qualificando a organização social”, pontua Jessé.

Jessé como formador no Programa Escola da Terra. Foto: acervo pessoal

Formar para permanecer e transformar

A história de Jessé também revela uma mudança nas possibilidades de acesso ao ensino superior para as populações camponesas. Primeiro de sua família a ingressar em uma universidade pública, ele observa que outros moradores de sua comunidade seguiram o mesmo caminho, inclusive avançando para a pós-graduação.

“Assim como eu fui o primeiro da família a ingressar numa universidade pública para cursar uma graduação, eu percebo que fui o primeiro, mas não fui o último”, conta.

A permanência dos jovens em seus territórios, com acesso à formação superior, é uma das questões centrais para a Educação do Campo. A proposta é ampliar oportunidades sem exigir que estudantes rompam os vínculos com suas comunidades, seus modos de vida e suas formas de organização.

Na avaliação de Jessé, a presença de egressos em escolas, associações e movimentos sociais contribui para fortalecer iniciativas já existentes, construir novas experiências educativas e valorizar a história das populações rurais. Esses resultados, porém, não são fruto de ações individuais isoladas, mas de processos coletivos construídos ao longo de gerações de trabalhadores, educadores e organizações sociais.

Nesse sentido, a valorização cultural não pode estar dissociada das condições materiais necessárias para a continuidade das comunidades. Para Jessé, é preciso reconhecer o campo não como um lugar de atraso ou de ausências, mas como território de produção de conhecimento, cultura, trabalho e resistência.

17 anos de formação e compromisso com os povos do campo

A trajetória de Jessé integra uma história mais ampla de formação e articulação entre universidade pública e movimentos sociais. A Licenciatura em Educação do Campo da UFMA teve suas primeiras iniciativas em 2007, por meio do Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo (Procampo), do Ministério da Educação. No Maranhão, a oferta foi viabilizada a partir de uma parceria iniciada em 2008 entre a Secretaria de Estado da Educação, o Comitê Estadual da Educação do Campo e a Pró-Reitoria de Ensino da UFMA.

As primeiras turmas foram iniciadas em 2009, nas áreas de Ciências da Natureza e Matemática e Ciências Agrárias. Posteriormente, com a institucionalização do curso e a adesão ao Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), as turmas regulares começaram a funcionar no Câmpus de Bacabal, em janeiro de 2015.

Ao longo dessa trajetória, a LEdoC tem buscado contribuir para a formação de profissionais comprometidos com as realidades das comunidades rurais maranhenses. Um dos diferenciais da proposta é a Pedagogia da Alternância, organizada em Tempo-Universidade e Tempo-Comunidade, que articula a formação acadêmica às experiências de trabalho, às práticas educativas e às dinâmicas sociais dos territórios.

Essa organização favorece o diálogo entre os conhecimentos científicos e os saberes locais, além de permitir que os estudantes mantenham seus vínculos comunitários durante o processo formativo. Entre as contribuições apontadas para o curso, estão a formação de educadores que atuam em suas próprias regiões, o fortalecimento das escolas do campo, a valorização da agricultura familiar e o desenvolvimento de práticas educativas contextualizadas com as realidades sociais, culturais e ambientais.

A celebração dos 17 anos da LEdoC representa, assim, uma oportunidade de reconhecer os caminhos percorridos e refletir sobre os desafios da educação nas áreas rurais do estado. “Não basta, não é o suficiente que o campo chegue à universidade. Nós precisamos ampliar os caminhos para que a universidade esteja cada vez mais presente no campo, dialogando com suas comunidades e seus conhecimentos, suas práticas, seus desafios e suas necessidades”, defende Jessé.

A reflexão sintetiza um dos sentidos da Educação do Campo: garantir não apenas o acesso dos povos do campo à universidade pública, mas também o reconhecimento de suas experiências como parte da produção do conhecimento acadêmico.

Seminário celebra a trajetória da LEdoC

Para marcar os 17 anos do curso, a UFMA realiza, de 11 a 13 de novembro, o seminário “Vozes, Lutas e Memórias do Campo”. O encontro reunirá docentes, estudantes, egressos, gestores públicos, representantes de instituições de ensino e integrantes de movimentos sociais para celebrar a trajetória da Licenciatura em Educação do Campo e discutir os desafios da formação e da educação nos territórios rurais.

Segundo Diana Diniz, organizadora do seminário, a celebração é também um momento de reflexão sobre a trajetória da política de formação e sobre a relação entre a Universidade e os povos do campo, das águas e das florestas. “[O seminário] é, antes de tudo, reconhecer a força das lutas sociais e das políticas públicas integradas que permitiram à universidade pública ultrapassar seus muros e chegar ao interior do Maranhão. Esta celebração não é apenas comemorativa; ela é um ato político, pedagógico e de memória”, afirma.

O seminário pretende recuperar experiências, avaliar o percurso do curso, debater a formação docente e reafirmar o compromisso com a democratização do ensino superior público e de qualidade, como explica Diana: “O seminário representa um momento estratégico de autoavaliação institucional e de reafirmação do diálogo com os povos do Campo, das Águas e das Florestas. Comemorar esse marco nos permite olhar para o caminho percorrido, honrar as memórias daqueles que lutaram por essa conquista e traçar as diretrizes para consolidar ainda mais o direito à educação de qualidade no e para o campo maranhense”.

Serviço:

Evento: Vozes, Lutas e Memórias do Campo — Seminário comemorativo aos 17 anos da Licenciatura em Educação do Campo na UFMA

Data: 11 a 13 de novembro de 2026

Local: Universidade Federal do Maranhão – Câmpus Bacabal

Inscrições e programação: https://doity.com.br/seminario-comemorativo-de-institucionalizacao-da-licenciatura-em-educacao-do-campo-na-ufma

Por: Ingrid Trindade

Fotos: acervo pessoal

Revisão: Jáder Cavalcante

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