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“Metáforas do amor”: estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher
Estudo sobre "Metáforas do amor" foi vencedor no prêmio FAPEMA 2025. Foto: Agaminon Sales (DCOM)
“Como as metáforas do amor, transgredidas por um contexto de violência, nos mostram detalhes da conceptualização de um sentimento universal?”. Essa e outras perguntas instigaram a pesquisa “Metáforas do amor na fala das mulheres vítimas diretas de violência doméstica”, desenvolvida pela mestra em Linguística Hanna Almeida, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras (PGLetras) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Sob orientação da professora Mônica Carneiro e coorientação do professor Cássius Chai, o estudo mostra, de forma inovadora, que as metáforas usadas pelas vítimas para falar do amor não apenas refletem experiências de violência, mas também podem reforçar sua naturalização ou, em contextos de acolhimento, favorecer processos de ruptura e reconstrução subjetiva. Em síntese, revela como essas mulheres interpretam e qualificam os acontecimentos vividos.
“Equivocadamente, as pessoas dizem ‘ficou porque quis’ ou ‘ficou porque ama’, mas será que é assim? O que eu posso explorar dentro do fenômeno metafórico, dentro do que elas dizem sobre o ocorrido? O que eu posso rastrear em relação a como elas apreenderam esse amor?”, questiona Hanna.
O estudo, de caráter descritivo-exploratório, foi vencedor na categoria Dissertação de Mestrado no prêmio FAPEMA 2025, realizado em janeiro de 2026. O trabalho aborda conceitos da Linguística Cognitiva, sob a óptica da Teoria da Metáfora Conceptual Estendida, para demonstrar, com maior clareza, os conteúdos da cognição envolvidos/ativados no contexto em que se insere o discurso.
Metáforas como forma de expressão
A metáfora é uma figura de linguagem essencial da comunicação humana, escrita ou falada, que estabelece uma comparação implícita entre dois termos, transferindo o sentido de um para o outro. Um exemplo é como imaginamos o conceito de “mais” como algo para cima e “menos” como algo para baixo, assim como “sucesso” para cima e “fracasso” para baixo.
“Tudo que nós pensamos é metafórico, uma maneira de apreender o mundo. No contexto do amor, buscamos aspectos da emoção, como ‘intensidade’ e ‘passividade’. Falamos frases como ‘fui cegado pelo amor’. No caso pesquisado, dentro da violência doméstica, a ocorrência é completamente diferente. Observamos a emergência de ‘amor’ muito ligado à ‘dor’, um sentimento relacionado à metáfora de ‘amor de sacrifício’, em relatos como ‘eu tenho que me sacrificar por esse casamento’”, explica a pesquisadora.
O estudo de Hanna teve como base discursos coletados para a tese de Carneiro (2014) e para a tese de Damacena (2021). O primeiro analisou relatos de mulheres acolhidas pela Casa Mirabal, em Porto Alegre, e o segundo, na Casa da Mulher Brasileira, em São Luís — instituições que oferecem acolhimento às vítimas de violência doméstica.
A partir da Teoria da Metáfora Conceptual (TMC), proposta por Lakoff e Johnson (1980), Hanna aplicou os conceitos dos autores em diálogo com a metodologia de Kövecses (2020).
“Além de elementos como ‘dor’ e ‘sacrifício’, também observei a ideia de ‘troca econômica’, uma categoria que incluí porque emergia de forma significativa nos relatos analisados”, afirma. Entre os exemplos, destaca frases como: “eu vou voltar com ele, com o agressor, porque ele vai terminar a minha casa”.
Outro ponto que chamou atenção foi a vulnerabilidade de muitas mulheres: “Eu tinha 16, 17 anos quando casei com ele, eu não sabia”, relatou uma entrevistada. “Nesse relato percebi uma vulnerabilidade física e emocional”, acrescenta Hanna.
Acolhimento e renovação
A experiência de violência vivida pelas mulheres evidencia a relevância das instituições de acolhimento, que, para muitas, representam uma renovação na forma de compreender os próprios sentimentos. Os relatos revelam uma ruptura com antigas concepções de amor e marcam um processo de transformação.
“Também me deparei com relatos como: ‘mas aí eu percebi que ele ia me matar’. Com isso, ocorre um colapso no frame de ‘investimento’, surgindo o da ‘sobrevivência’, a partir dos cuidados nessas casas”, explica.
Nesse contexto, os discursos ressaltam o papel essencial dessas instituições como parte das políticas de atenção e cuidado voltadas a esse público. “Eu consegui rastrear o amor próprio. São relatos de mulheres que já passaram por um atendimento. Esse olhar, como ‘eu sou muito mais mulher’, ‘eu me amo muito mais’, revela um rastreio de amor próprio. A partir dos cuidados, as frases trazem novos olhares, como ‘hoje eu sou uma outra mulher’, ‘eu sou muito mais combativa’, ‘eu não sou mais a pessoa que eu era’, ‘eu me amo muito mais’”, afirma.
De acordo com as constatações da pesquisa, o papel desempenhado pelas casas de acolhimento também revela a construção de uma rede de apoio entre as mulheres acolhidas. “Eu tenho rastreios de um amor como ‘teia’, a sororidade muito mais nítida no discurso dessas mulheres.”
Contribuições à sociedade
Disponível no repositório on-line da Universidade Federal do Maranhão, o trabalho da autora tem importância que vai além do campo acadêmico e oferece subsídios para um olhar mais humano e empático aos casos de mulheres vítimas de violência doméstica, sendo capaz de transformar práticas sociais e políticas públicas.
“Um trabalho que traz todas essas nuances, todos esses resultados, colabora diretamente com uma escuta mais empática de qualquer acolhimento ou projeto social”, afirma Hanna.
Os relatos analisados permitem compreender não apenas a emoção demonstrada pelas mulheres, mas também como, por meio da linguagem, elas reelaboram suas experiências. Ao longo do estudo, emergem perspectivas que apontam para uma verdadeira virada de chave na vida das mulheres acolhidas. “Hoje, elas já têm o amor próprio ocupando uma instância maior. Não somente esse, mas também a metáfora da sororidade: não se sentem mais aprisionadas, isoladas ou sozinhas”, finaliza a pesquisadora.
Mais do que um registro acadêmico, a pesquisa se torna uma ferramenta social, capaz de fortalecer redes de apoio e oferecer novos olhares sobre o enfrentamento da violência doméstica.
Por: Agaminon Sales
Revisão: Jáder Cavalcante