Notícias
Muito além dos Lençóis: a força econômica do turismo na Chapada das Mesas
São Luís - Há cerca de 13 anos, quando começou a falar sobre balonismo na Chapada das Mesas, Beto Kelnner costumava ouvir que a ideia era loucura.
Na época, a região ainda estava longe de figurar entre os principais destinos turísticos do Maranhão. Os investimentos eram limitados, a infraestrutura ainda engatinhava e boa parte dos atrativos naturais que hoje atraem visitantes de diferentes estados ainda eram pouco conhecidos fora do sul maranhense. Mesmo assim, ele insistiu.
Empresário do setor turístico e um dos pioneiros na promoção da Chapada das Mesas, Beto faz parte de uma geração de empreendedores que apostou no potencial econômico de uma região cercada por cachoeiras, rios de águas cristalinas, cânions e formações rochosas esculpidas pelo tempo.

Passaporte da Chapada das Mesas. Foto: Linda Rodrigues
Mais de uma década depois, a aposta começou a dar resultado.
O turismo na Chapada das Mesas cresceu mais de 200% nos últimos anos, segundo estimativas do próprio setor, impulsionando a abertura de agências, a qualificação de guias, a criação de novos atrativos e o fortalecimento de uma cadeia de pequenos negócios que hoje movimenta a economia de municípios como Carolina, Riachão, Estreito, Balsas e Fortaleza dos Nogueiras.
Enquanto os Lençóis Maranhenses receberam mais de 656 mil visitantes em 2025 e seguem como principal vitrine turística do estado, a Chapada das Mesas construiu uma trajetória diferente. O crescimento da região foi impulsionado principalmente pela iniciativa de empresários locais que decidiram investir em hospedagem, ecoturismo, turismo de aventura e experiências capazes de transformar a natureza em oportunidade.

Foto: arquivo de Beto Kelnner
Uma região que descobriu na natureza uma oportunidade

Cachoeira dos Namorados e Poço Azul. Foto: Linda Rodrigues
Localizada no sul do Maranhão, a Chapada das Mesas reúne alguns dos cenários naturais mais impressionantes do estado. Cachoeiras, rios de águas cristalinas, cânions, formações rochosas e áreas preservadas de cerrado compõem uma paisagem que se estende por dezenas de municípios e atrai visitantes em busca de contato com a natureza e turismo de aventura.
O Parque Nacional da Chapada das Mesas, criado em 2005, ajudou a consolidar a identidade turística da região. Mas o desenvolvimento da atividade foi além dos limites da unidade de conservação. Atrativos como o Complexo Poço Azul, o Santuário Ecológico de Pedra Caída, a Cachoeira Santa Bárbara e diversos balneários, trilhas e mirantes espalhados pelo sul maranhense passaram a integrar os roteiros de visitantes de diferentes partes do país.
Ao contrário de destinos turísticos que nasceram a partir de grandes investimentos estruturantes, a Chapada das Mesas cresceu de forma gradual. Empreendedores locais começaram a enxergar potencial econômico onde antes muitos viam apenas paisagens naturais.
Foi esse movimento que impulsionou a abertura de pousadas, restaurantes, agências de turismo, serviços de transporte, atividades de aventura e empreendimentos voltados ao ecoturismo. Ao longo dos anos, a atividade turística deixou de ser complementar e passou a ocupar papel relevante na economia regional.
Para Beto Kelnner, empresário do setor turístico e um dos incentivadores da atividade na região, a principal característica da Chapada é justamente a forma como ela se desenvolveu.
"A Chapada se fez na energia de quem está aqui, na força de quem está aqui, do empresariado que acreditou, que correu risco, que investiu", resume.
Segundo ele, diferentemente de outros destinos turísticos já consolidados, grande parte da estrutura construída na Chapada nasceu da iniciativa privada. Empreendedores locais passaram a investir em atrativos, hospedagem, serviços e experiências turísticas muito antes de a região ganhar projeção nacional.
"Com baixo investimento estatal, você não tem o investimento que tem os Lençóis aqui na Chapada. A Chapada se fez na força de quem está aqui", afirma.
Na avaliação de Beto, o resultado desse processo pode ser observado na própria evolução da atividade turística. "Não tem como comparar hoje a Chapada das Mesas de 13 anos atrás. Não tem nem número de atrativos, nem infraestrutura, nem qualificação profissional", diz.
Para ele, o crescimento da região transformou a Chapada em um caso raro dentro do turismo maranhense. "A Chapada é um case de sucesso. Ela se fez na tora mesmo. Na garra. De quem está aqui."
A virada que ninguém esperava
A trajetória de crescimento da Chapada das Mesas sofreu uma interrupção brusca em 2020, quando a pandemia de Covid-19 paralisou o turismo em todo o país.
Assim como aconteceu em outros destinos brasileiros, atrativos fecharam as portas, viagens foram canceladas e empreendedores precisaram enfrentar um período de incertezas. Muitos negócios reduziram atividades, readequaram equipes e adiaram investimentos enquanto aguardavam a retomada do setor.
Mas o cenário começou a mudar à medida que as restrições foram sendo flexibilizadas.
Depois de meses de isolamento, as pessoas voltaram a procurar experiências fora de casa. E os destinos de natureza passaram a ocupar lugar de destaque nesse movimento.
"Todo mundo estava confinado. Todo mundo queria sair de casa", relembra Beto Kelnner.
A Chapada das Mesas reunia características que se encaixavam nesse novo perfil de turista. Cercada por rios, cachoeiras, trilhas e áreas preservadas, a região oferecia atividades ao ar livre em espaços amplos, permitindo que os visitantes mantivessem distância de grandes aglomerações.
"Todo mundo queria ir para lugares de natureza. Em um parque com 160 mil hectares, você consegue manter as pessoas distantes umas das outras", explica.
A retomada do turismo trouxe reflexos imediatos para a economia local. Segundo Beto, a procura crescente pelos atrativos naturais impulsionou a abertura de novos negócios e ampliou a demanda por profissionais do setor.
"Nós tínhamos dez guias, passou para cinquenta. Condutores tinham três, passou para noventa. As agências tinham três, passou para vinte", afirma.
A mudança não aconteceu apenas na quantidade de empreendimentos. A pandemia também acelerou transformações que o setor acreditava que levariam anos para acontecer. Ferramentas digitais, sistemas de reservas, comunicação online e novas formas de relacionamento com os clientes passaram a fazer parte da rotina dos negócios turísticos.
"O que a gente imaginava fazer em dez anos, teve que fazer em um", resume Beto.
A combinação entre o aumento da procura por destinos naturais e a modernização dos serviços ajudou a consolidar uma nova fase para o turismo da Chapada das Mesas, ampliando oportunidades para empreendedores e fortalecendo uma cadeia econômica que continuava em expansão.
A economia que nasce da natureza
Cachoeira de Santa Bárbara, Riachão. Foto: Linda Rodrigues
O crescimento da Chapada das Mesas também passou a chamar a atenção de instituições voltadas ao fortalecimento dos pequenos negócios. Em um setor formado majoritariamente por pousadas, restaurantes, agências de turismo, guias, condutores, artesãos e empreendedores locais, a qualificação profissional e a gestão dos empreendimentos tornaram-se fundamentais para sustentar o avanço da atividade.
Nesse contexto, a região passou a integrar as ações desenvolvidas pelo Sebrae Maranhão nos polos turísticos do estado. Atualmente, a instituição atua em nove dos dez polos turísticos maranhenses, incluindo a Chapada das Mesas, com foco no fortalecimento do ecoturismo, do turismo de aventura e da cadeia de negócios ligada ao setor.
Nos últimos quatro anos, o Sebrae ampliou sua presença em 49 municípios maranhenses com ações voltadas ao desenvolvimento do turismo e do artesanato local. Somente em 2025, foram realizados 9.501 atendimentos a pequenos negócios ligados à cadeia produtiva do turismo e do artesanato, além de investimentos que somaram R$ 10,65 milhões em qualificação, inovação, gestão e acesso a mercado.
Os números ajudam a explicar uma mudança percebida por quem acompanha o desenvolvimento da Chapada das Mesas. Se no início o turismo era visto como uma atividade complementar, hoje ele movimenta uma rede de empreendimentos que gera emprego, renda e oportunidades em diferentes municípios da região.
A profissionalização do setor também contribuiu para elevar o padrão dos serviços oferecidos aos visitantes. A busca por capacitação, a adoção de novas tecnologias e o fortalecimento da governança turística passaram a fazer parte da estratégia de crescimento dos negócios locais.
Mais do que atrair turistas, o desafio passou a ser transformar o potencial natural da região em uma atividade econômica sustentável e capaz de gerar benefícios para quem vive no território.
A aposta na "Capadócia Maranhense"
Balonismo na região da Chapada das Mesas. Foto: Linda Rodrigues
Entre as novas experiências que surgem na Chapada das Mesas, o balonismo se tornou símbolo de uma região que continua buscando inovar.
A ideia começou a ser discutida há mais de uma década, quando ainda parecia distante da realidade local. "Se hoje ainda tem gente que acha que balonismo é coisa de maluco, imagina há 13 anos", brinca Beto Kelnner.
Inspirada em destinos conhecidos mundialmente pelos voos panorâmicos, a proposta rendeu à região um novo apelido: a "Capadócia Maranhense", em referência à famosa região da Turquia.
Para Beto, o sucesso da iniciativa segue a mesma lógica que impulsionou o crescimento da Chapada: acreditar antes que o resultado apareça. "Não sabia que era impossível, então fui lá e fiz", resume.
Nos últimos anos, os balões passaram a aparecer em eventos estratégicos da região, aproximando moradores e turistas da experiência e ajudando a quebrar resistências em torno da atividade. "É uma construção aos poucos. As pessoas vão conhecendo, entendendo como funciona e percebendo que é uma atividade segura", afirma.
A Agrobalsas se tornou uma das principais vitrines desse processo. Em 2026, o balonismo integrou a programação do evento e chamou atenção não apenas pelo espetáculo visual, mas pelo potencial de agregar valor à cadeia turística da região.
A estratégia agora é transformar a experiência em um produto permanente, com temporadas de voo e uma operação estruturada na Chapada das Mesas. Mais do que um novo passeio, a atividade representa uma oportunidade de ampliar experiências, atrair visitantes e fortalecer pequenos negócios ligados ao turismo.

Vista panorâmica da Fazenda Sol Nascente. Voo de balão. Foto: Linda Rodrigues
O futuro que nasce da Chapada

Sombra do Balão. Foto: Linda Rodrigues
Nos últimos anos, a Chapada das Mesas passou a atrair cada vez mais atenção de visitantes, investidores e iniciativas voltadas à promoção do turismo regional. Um dos exemplos recentes foi a realização da edição 2026 do São João da Thay em Imperatriz, ampliando a visibilidade do sul do Maranhão e de seus atrativos naturais para públicos de diferentes partes do país.
Mais do que um destino turístico, a Chapada se consolida como um exemplo de desenvolvimento territorial baseado na valorização dos recursos naturais, na inovação de experiências e no fortalecimento dos pequenos negócios. O crescimento de pousadas, agências, serviços de receptivo, atividades de aventura e empreendimentos ligados ao turismo demonstra como a natureza pode ser transformada em oportunidade econômica de forma sustentável.
Nesse processo, conhecimento, qualificação e inovação tornaram-se tão importantes quanto os próprios atrativos naturais. A profissionalização do setor, o uso de novas tecnologias e a busca por experiências cada vez mais diferenciadas mostram que o futuro do turismo na região passa não apenas pela preservação das paisagens, mas também pela capacidade de gerar renda, estimular o empreendedorismo e criar oportunidades para quem vive no território.
Em um estado reconhecido mundialmente pelos Lençóis Maranhenses, a Chapada das Mesas constrói um caminho próprio. Um caminho onde o desenvolvimento nasce da combinação entre natureza, iniciativa empreendedora e pequenos negócios que ajudam a transformar potencial em prosperidade para o sul do Maranhão.
REDAÇÃO: Linda Rodrigues