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Da cana-de-açúcar ao combate de superbactérias: UFMA patenteia antibiótico natural revolucionário

publicado: 30/11/2025 16h23, última modificação: 30/11/2025 16h23
Antibiótico oriundo do extrato da polpa da cana de açúcar (saccharum officinarum) e seu uso.jpg

Pesquisadores do Maranhão desenvolvem fármaco atóxico capaz de destruir biofilmes resistentes, oferecendo nova esperança no tratamento de infecções hospitalares graves.

SÃO LUÍS, MA – Em um avanço promissor para a medicina tropical e infectologia mundial, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) obteve a carta patente definitiva para um novo antibiótico desenvolvido a partir de uma das matérias-primas mais abundantes do Brasil: a cana-de-açúcar.

A concessão da patente nº BR 102013029245-1 pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) valida anos de pesquisa de uma equipe liderada por cientistas maranhenses, que encontraram na natureza uma resposta para um dos maiores desafios da saúde pública global: a resistência antimicrobiana. 

O Cenário: A Crise dos Antibióticos e o Perigo Invisível 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a resistência a antibióticos como uma das maiores ameaças à saúde global. O uso excessivo de medicamentos convencionais criou "superbactérias" que não respondem mais aos tratamentos padrão. Além disso, em ambientes hospitalares, microrganismos formam biofilmes — barreiras protetoras que aderem a cateteres, próteses e tecidos, tornando as infecções praticamente blindadas contra remédios comuns.

É neste cenário crítico que a inovação da UFMA se destaca. Ao contrário dos antibióticos sintéticos, que frequentemente causam efeitos colaterais severos (toxicidade renal ou hepática), a nova formulação ataca os patógenos sem agredir o corpo humano. 

A Inovação: O Poder Oculto na Polpa da Cana 

Os inventores — Ronaldo Doering Mota, Patrícia de Maria Silva Figueiredo, Cristina de Andrade Monteiro, Raquel Sousa Catão e Valério Monteiro Neto — desenvolveram um extrato hidroalcoólico da polpa da cana-de-açúcar obtido por um processo de maceração a frio.

Os testes laboratoriais revelaram propriedades surpreendentes:

  1. Quebra de Escudos: O composto possui ação direta na inibição e degradação de biofilmes, destruindo a estrutura que permite a sobrevivência das bactérias em ambientes clínicos.

  2. Amplo Espectro: O medicamento mostrou eficácia contra uma lista robusta de inimigos da saúde, incluindo fungos como Candida e Cryptococcus, e bactérias perigosas como Staphylococcus aureus, E. coli e Klebsiella.

  3. Segurança: O produto provou ser atóxico para células humanas, uma vantagem crucial para o tratamento de pacientes imunocomprometidos (como portadores de HIV ou pacientes em quimioterapia).

 

Impacto Econômico e Versatilidade

 

Além da eficácia clínica, a invenção brilha pela viabilidade econômica. Utilizando materiais amplamente disponíveis e um processo de extração de baixo custo, o novo antibiótico tem potencial para ser produzido em larga escala pela indústria farmacêutica nacional, reduzindo a dependência de insumos importados.

A patente descreve uma versatilidade impressionante. O princípio ativo pode ser transformado em diversos produtos finais, dependendo da necessidade médica:

  • Uso Tópico: Cremes, pomadas e géis para feridas infectadas.

  • Uso Oral: Cápsulas, comprimidos, xaropes e colutórios (enxaguantes).

  • Uso Hospitalar: Soluções e aerossóis. 

O Futuro do Tratamento

 

Com a patente concedida em 28 de setembro de 2021 e válida por 20 anos a partir do depósito (2013), a tecnologia está protegida e madura para transferência. O próximo passo lógico é a parceria com laboratórios farmacêuticos para a realização de ensaios clínicos finais e comercialização.

A descoberta coloca a ciência do Nordeste brasileiro na vanguarda da biotecnologia, provando que soluções sustentáveis e de alta tecnologia podem nascer da biodiversidade e da agricultura nacional.

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